Não, eu não escrevi errado. É Mc "Céu" mesmo, uma (tentativa de) versão religiosa do Créu. Eu duvidava que isso fosse possível, mas ficou bem pior do que o original (cuja análise, aliás, estou devendo para alguns amigos). No vídeo, um fedelho - talvez o tal de "DJ Fernando Nitro" o locutor repete irritantemente quase a cada quinze segundos - dubla e dança a letra bem mal-adaptada (para quem não tiver coragem de assitir o vídeo, transcrevi ali embaixo) para o tema religioso. A substituição das rimas "disposição" e "habilidade" do original por "oração" e "santidade" não salvam o desastre musical (¿musical?) da re-interpretação.
Pra começo de conversa, a idéia de parodiar um funk com a letra evangélica nunca poderia dar certo porque, no final das contas, a força da canção (ou o 'recado', como diria Zé Miguel Wisnik) se apóia mais na parte rítmica-melódica do que naquilo que o vocalista (?) pronuncia. Se a letra tentava passar uma mensagem minimamente religiosa, o timbre de "malandro da perifa" já arremessa toda a canção para o universo funk-carioca do sexo e da marginalidade. O exemplo mais claro - de novo de Zé Miguel Wisnik - é o caso dos jingles políticos da década de 40 que usavam frustradamente o samba para divulgar os candidatos pois o rítmo das composições lembrava muito mais a malandragem dos sambista do que a propaganda política em si.
O sampleamento bem sem vergonha feito pelo tal estúdio combina muito bem com a coreografia porcamente adaptada à nova letra. Ao invés das reboladas do funk, o pseudo-pivete faz uns balançados com as mãozinhas espalmadas (se eu não me engano, as Sheilas faziam uma coisa parecida na música do Samurai do Tchan, ou algodo tipo...) para representar a "oração" e a "santidade". Naquilo que devia ser um refrão, o "créu" vira "céu" e a dancinha não podia ser mais ridícula, lembrando mais exercícios da hidroginástica ou uma coreografia de axé.
Como se não bastasse tudo isso, a letra ainda é um desastre à parte. É muito mais como uma intimidação do que uma celebração que pretende religiosa. ´Coincidência ou não com o discurso de algunmas igrejas evangélicas, a menção ao "inimigo" e ao "satanás" aparece a todo momento, para assustar aquele que porventura se recusar a ter "muita oração e muita santidade". Na pior das hipóteses, o sujeito vai pra igreja (ou canta o funk, agora nem eu sei mais) por medo do "inimigo", e não por uma fé verdadeira. A última parte da música (?) já resume bem o tom geral de ameaça: "se não for pro céu, o satanás créu". (!!!) As vozezinhas que aparecem por último já retratam bem o perfil (religioso-espiritual) de ouvinte pretendido pela música, sem precisar dar explicações. Além disso tudo, a citação dos "preparados par entrar no céu" não conseguem apagar a origem hipersexualizada da gíria que, junto com o arranjo e o timbre maloqueiro, deixam o ouvinte com uma leve dúvida se é de religião ou sexo que está se falando.
Conclusão de tudo: a música é uma verdadeira catástrofe. Isso nunca irá tocar em qualquer igreja, por menos séria que ela seja. A paródia quase nunca favorece o resultado da adaptação, principalmente quando entra em jogo ritmo, melodia-harmonia e timbre. Ouvindo essa obra-prima da incopetência, vem à mente muito mais o funk (a ser analisado!) do que a suposta mensagem religiosa pretendida. Por fim, aí vaí a última flor beletrista da cultura brasileira:
MC Céu
Pra ir pro céu, tem que ter muita oração
Pra ir pro céu, tem que ter é santidade
Porque o inimigo não dá mole não
Só Jesus Cristo é que salva de verdade
(2x)
-Quero ver todo mundo que vai pro céu
Céééu! (x4)
-Aumenta lá pra todo mundo que vai morar no céu
Cééu! Cééu! (x4)
- Tá maneiro, tá maneiro! Aê, agora é só para os preparados! DJ, solta o som só pra quem tá preparado
CéuCéuCéuCéuCéuCéuCéuCéu (x4)
Se você não for pro céu
Satanás, créu!
Quinta-feira, Março 27
"Was nutzen mir die Grundzüge der Dialethik
Wenn es kalt wird in meinem Körper?"
Quinta-feira, Março 13
Por que eu estudo alemão
Lattentreffer: a palavra é um composto unindo "Latte" e "Treffer". A segunda parte parece simples, vem do verbo "treffen", que em alemão quer dizer "encontrar", "esbarrar", "topar", etc. Já "Latte" indica qualquer objeto de madeira ou metal relativamente comprido. Ou seja, falando de esporte, podemos traduzir por "trave", seja a do futebol, seja a da ginástica olímpica ou do atletismo (aliás, em uma linguagem figurada, também pode indicar a "trave" masculina ...). Assim, "Lattentreffer" significa aquele chute que acerta bem na trave e faz a galera passar a mão na cabeça. Se alguém ainda lembra da proeza do Ronaldinho Gaúcho, então teá uma boa idéia do que seja um "Lattentreffer". Aquele bola que sai chorando pela linha de fundo não poderia de maneira nenhuma ser chamada de "Lattentreffer". Tem que ser aquela bem chutada, com cara de quem ia direto pro gol mas por algum desgraçado motivo, se desviou e foi na trave deixando todo mundo ansioso. Agora alguém poderia me explicar: se somos mesmo o país de futebol, por que é que nós não temos uma palavra como essa dos alemães?
Sexta-feira, Março 7
Assim
Se fala como se escreve
Como se escreve, se fala
Se lê como se escreve
Se lê como se fala
Se lê como
Se fala não como
Se entala
Sem ver como se escreve
Se não vê como se diz
Se escreve como se cala
Se vê como se estala
Como se lê, se fala?
Se ver,
Como se ler?
Só se escreve
Se não fala.