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Terça-feira, Janeiro 8
Aos que vão nascer (continuação)
Porque é sempre assim. Quando eu carregava sua estrelinha nos braços, vinha alguém com uma luz mais forte tentando ofuscar o pequeno tesouro que eu protegia no meu colo. Quando eu escondia os buracos negros de meu universo, sempre aparecia alguém para mostrar que a sua escuridão era de maior gravidade e mais séria do que a minha. Foi por isso que tenho me esgueirado por esta ponte todos os finais de tarde, me esforçando ao máximo para as pessoas passarem reto com pressa para qualquer lugar que fossem. Se alguém me assaltar no dia de hoje, vai ser difícil conseguir outra estrela a tempo pra você, meu filho. Já já você chega, e quero deixar as coisas arrumadas, o seu berço de retalhos, seu cobertor de tecido denso, a água morna, a pequena meia remendada e o móbile com a estrela.
Sabe, filho, hoje em dia já é muito perigoso andar pela rua sem ficar olhando para os lados e para trás desconfiado. Mesmo sem ter feito nada, a gente morre de bala perdida e nem percebe o que aconteceu para ter merecido isso. Mesmo fazendo tudo direitinho, a gente realmente nunca sabe o que acontece no próximo farol. A gente nunca sabe se passa o farol para não ser assaltado ou fica parado para não correr o risco de bater. É duro ter de atravessar o viaduto com o embrulho debaixo do braço, sempre com medo de que um pivete um dia leve embora o presente do meu filho que tenho cuidado há tanto tempo e venda em uma feirinha ralé de beira de avenida. Por mais que eu tente esconder, acho que as pessoas sentem o cheirinho suave cítrico que exala da sua estrelinha e desconfiam do que eu trago no pacote.
Mas não precisa ter medo, meu filho. Quando você estiver grande, sua estrela protejerá você com sua canção eterna e seu aroma evanescente. Basta carregá-la com convicção e fé, tenha certeza de que ninguém poderá tirá-la de você, a não ser que você queira. Nenhum bigodinho filho da puta vai te abordar, nenhum trombadinha vai levar de repente, absolutamente ninguém pode te separar dela. É verdade que vai aparecer muito sorridente mentiroso, de barba e conversa agradável tentando te convencer de vender a estrelinha, mas não dê ouvidos! Também vai ter muita gente de palavra mansa querendo te fazer odiar a estrelinha e jogá-la fora em uma esquina qualquer. Provavelmente você se sentirá tentado a fazer isso, a abandonar tudo, a andar descompassado pelas escadas, pelas escalas, pelas paragens desconhecidas.
Quando isso acontecer, lembre-se que é essa estrela que realinha todas as linhas da sua vida, redesenhando cada curva e cada incidente que tangencia sua trajetória exata e fatal. É por isso, filho, que esse pacote treme agora embaixo do meu braço. Porque quero que você conheça sua estrela desde o começo, mesmo que o preço seja a sua rejeição na juventude. Por causa da sua estrelinha, muitos vão rir da sua cara, do seu jeito espontâneo e incomodamente plácido; vão estranhar o seu rosto e o seu jeito, ninguém vai conseguir dizer exatamente se você é um adulto com jeito de criança ou uma criança apática e introspectiva. E você irá me odiar muito por causa disso. Mas espero que com isso você aprenda a lidar com o fraco brilho de sua estrela, eneblinado como o céu cinzento da metrópole, intrigante como a luz fosca do fogo-fátuo no mato.
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