Quem mora no litoral, admira o horizonte do mar. Como eu moro na metrópole, admiro o pôr-do-sol colorido e poeirento sobre a marginal poluída. Sob um ruído indistinto, um ou outro raio do sol reflete no pára-brisa dos carros e cria aquele efeito que os jornais na tevê gostam de mostrar. É nessa hora, atravessando a ponte mal-varrida sobre o rio, que penso em você, meu filho. Você, que ainda não nasceu mas já tem um trajeto belo e fatal, povoa meu espírito anestesiado pelo barulho constante e destrutivo deste mundo.
O mundo que o papai assiste já é um lugar desconfortável o bastante, mas mesmo assim a gente tenta entendê-lo. Você ainda passará uns bons nove meses antes de conhecer essa grande história, em que você é um herói grego. Então, quando seus olhinhos começarem a enformar essa tempestade de cores e formas, poderás vivenciar tudo aquilo de que estou falando agora e assim, saberás como funciona essa máquina gigante, que a tia da escola te ensinará como "mundo" e te fará desenhar como uma bola azul com uns borões em marrom flutuando em uma sopa preta com pequenas ervilhas brilhantes.
Mas descobrirás, meu filho, que a professora te enganou, que o mundo era um pouco mais complicado e não tinha uma carinha sorrindo, como no seu desenho. Descobrirás sozinho, o papai não vai ficar te tagarelando, como farão os pais dos seus amiguinhos. Mas não fique triste: tenha certeza que o papai te ajudaria, se ele entendesse realmente alguma coisa dessa bagunça imensa, que é bem mais triste e merece muito mais uma bronca do que seus carrinhos espalhados pelo chão do quarto. É verdade que sua mãe te dirá para guardar tudo depois de brincar. Não a desobedeça, mas também não se acostume porque a maioria dos brinquedos que encontramos nesse quarto gigante em que passamos a vida não podem ser guardados e muito menos jogados fora.
Um dia - um fatídico dia - teremos de retirar o mobile musical do teto de seu quarto, mas você precisará carregá-lo consigo para sempre. Como se ele estivesse preso no teto do quarto-gigante, você deve procurar alcançá-lo, assim como fazia no berço. Nunca perca essa estrelinha rodopiante e nem sua suave canção, pois sem a sua serena melodia seremos carcomidos pelo barulho e pelo cansaço, assim como já estou eu. Você regerá suas notas e suas sílabas, suas provas e suas notas, seus passos e suas provas, com maestria contida em seu sangue. Sim, sua vida será uma bela canção - um 'adagio' inesquecível - de um timbre de sopro vital, e por isso tentarão te censurar, abafar a sua voz e sufocar o seu fôlego. Mas você mostrará a esses surdos que a sua estrelinha nunca morrerá, mesmo que os céus estejam saturados de partículas de dióxido de carbono e povoados de satélites de vigilância militar: ela sempre permanecerá girando calma com sua eterna cantiga de ninar.
(continua....)
Domingo, Dezembro 16
Um filósofo está entretido no seu ato intelectual quando subitamente algo o interrompe
Terça-feira, Dezembro 11
-Nothing is left for me but a slight sigh-
(...for now)