Sábado, Outubro 27

Ethos? Esse cara é especialista em quê?

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O mundo acadêmico sempre foi conhecido pelas suas discussões mirabolantes e suas terminologias indecifráveis na maioria das vezes. Essa herança da escolástica assombra não as sociedades européias (que tem um sistema de ensino bem arquiteturado) mas sim os pobres tupiniquins que só podem contar com universidades de no máximo 100 anos. Pra baixo do equador, existem apenas dois caminhos no ensino superior: a escolinha de gente grande ou a redoma poeirenta da academia.

De um lado, a faculdade é só um adestrador de empregados, que elimina os alunos assim que eles peguem o seu diplominha, acreditando ter ganhado alguma habilidade valiosa no mercado de trabalho. Do outro lado, a universidade é tipicamente o espaço incubador de altas discussões epistemológicas da misé en marche científica, mas que sequer dá sinal de relevância fora dos muros acadêmicos.

O que eu me pergunto ( e sempre pergunto isso) é: por que é que não dá pra pular esse abismo?


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Ethos foi um conceito estipulado por um cara chamado Aristóteles, há muito tempo atrás. Entre muitas outras idéias, ele escreveu bastante sobre como conquistar os outros e ter um papo fino que convence todo mundo (ou pelo menos chega perto disso). Bacana, né? Agora vamos ver o que isso tem a ver com você, ou, mais especificamente, o que isso etm a ver com seu trabalho.

Entrevistas de emprego são sempre situações embaraçosas. Nunca se sabe quem te entrevistará, o que exatamente será avaliado, quais detalhes esconder ou mostrar. Talvez seja um dos assuntos preferidos a serem atacados pelas revistas executivas e os livros de "auto-ajuda corporativa" (afinal, desde quando esse raio de gênero existe, alguém pode me explicar?).

Para evitar correr riscos, muitas pessoas recorrem ingenuamente a bordões ou "frases de impacto". Empregadores e agentes de RH ouvem todos os dias - com alguma dose de tédio - promessas messiânicas como "sou motivado e proativo", "gosto de trabalhar em equipe", "gosto de conhecer coisas novas" ou até mesmo "tenho aptidão facilidade para aprender" (uma boa paráfrase de "não sei nada, mas me contrate").

Mas, o que há de errado nisso? Afinal, não é justamente esse tipo de postura que todos recomendam?

É exatamente aí vemos armada a armadilha da linguagem. Essas dicas aparecem em qualquer revista empresarial e existem até mesmo livros que trazem essas frases de motivação para empresários. São, portanto, largamente difundidas (o famoso "dizem por aí"). O que um futuro funcionário faz ao usar uma dessas frases é se apropriar da voz de um outro. Se a entrevista de emprego fosse uma história em quadrinhos, com certeza teríamos que colocar aspas no tal bordão.

Não precisamos enrolar o palavreado para entender como alguém "se apropria da voz do outro". Isso funciona mais ou menos como os famosos bonequinhos de ventríloquo, que apenas mexem a boca enquanto a verdadeira voz - aquilo que transmite os conteúdos - é de outra pessoa.

Em outras palavras, aquela demonstração tão segura de garra, competência e determinação pode não ter vindo realmente de você. Ou pelo menos é isso que parece ao entrevistador. Na verdade, nada garante a ele que o próximo candidato apresente - por coincidência! - exatamente as mesmas virtudes que você. Por trás da seqüência de bonequinhos, deixa-se transparecer essa voz da "liderança" e da "voluntariedade" que, na verdade, não pertence (pelo menos nestes casos) a nenhum deles.

Esse tipo de deslize é cometido por muitas pessoas que, por insegurança ou receio, buscam um apoio seguro nos chavões de motivação corporativa. É muito mais recomendável mostrar seus méritos, escolhendo uma argumentação mais original, do que apenas falar vagamente sobre eles. Por isso é preciso tomar cuidado e refletir: nos processos de seleção, você pretende ser lembrado como alguém único, dotado de peculiaridades de fato improváveis, ou como mais um papagaio das idéias alheias, que precisará se esforçar demais para afirmar as virtudes que prometeu?






Terça-feira, Outubro 16

Dia das...crianças?

Criticar a hipocrisia das datas comemorativas já virou clichê principalmente com a cultura da internet, que faz as pessoas se comunicarem muito mais por correntes de e-mails do que pessoalmente. Mas raramente vemos uma crítica sóbria e com justificativas razoáveis quanto a que Rosely Sayão faz sobre o dia das crianças.

Não há como duvidar que é mesmo o comércio quem fica mais alegre no dia das crianças. Com muita clareza e sem rodeios mega-intelectuais, ela mostra sua opinião contra o consumismo e o exagero materialista da presenteação. Quem é que nunca testemunhou aquela conhecida cena da criança que ganha um brinquedo novo fantástico, mas que perde a graça depois dos vinte minutos de uso?


Afinal, "se toda criança tem uma estrela dentro do coração", porque anunciar tantos brinquedos numa mesma propaganda?


Nesse ponto, ela parece defender, mesmo que implicitamente, a proporção inversa entre quantidade de brinquedos x qualidade do desenvolvimento psicológico. É justamente a mesma ideologia que aparece bastante nas historinhas do Cascão. Os brinquedos de sucata inventados pelo sujinho são sempre apresentados como mais divertidos e prazerosos do que as parafernálias eletrônicas (geralmente do Cebolinha) que se tornam entediantes ou quebram em pouco tempo.

A articulista comenta também sobre como os adultos têm lidado com a criança, sobrecarregando-a de cursos e "tirando" o seu tempo de lazer livre. Ela questiona ainda as brincadeiras intencionalmente dirigidas pelo adulto para se tornarem um aprendizado, insinuando que esse "divertimento com objetivo" é prejudicial. Ora, mas será que a "lição disfarçada de brincadeira" sempre tira a liberdade da criança? Ou melhor, porque "aprender" e "brincar" se excluiríam, como pretende a pedagoga? Aqui, aparece de novo aquela idéia - se não for universal, muito freqüente - de que o querer e o dever não podem conviver em harmonia. O que eu me pergunto é: por quê?

Ainda nesse caminho, Rosely Sayão menciona a eliminação do espaço infantil. Nada poderia ser mais acertado. Cada vez mais repletos de "objetos essenciais" como computador, televisão, DVD, videogame, e tantos outros, os quartos dos filhos se transformam em pequenos cativeiros com cercas invisíveis, dentro das quais os pequenos querem - e os pais torcem para que eles queiram - ficar confinados. Afinal, é muito mais fácil obter filhos obedientes, se eles permanecerem num "chiqueirinho" doméstico, no qual eles possam bagunçar à vontade. Fora dali, a criançada pode muito pouco. Não pode falar alto, não pode correr, não pode mexer em nada, não, não e não.


"Pela paz que eu não quero seguir admitindo"

Devo concordar com a Rosely que a entrada precoce da cirança no mundo adulto parece ser sim um fator agravante. Eu iria ainda mais adiante. O seu apelo final por um dia das crianças "mais infantil" parece comprovar de maneira surpreendentemente clara os sintomas de que, ao menos ultimamente, a noção de "infantil" ( e por conseqüência, a de "adulto") tem pouca relação com a faixa etária do sujeito.

Isso se vê com facilidade em alguns comerciais de cerveja e de carro, nos quais o espírito lúdico chega a extrapolar os limites do bom senso do consumidor, mostrando um adulto "infantilizado" - às vezes beirando até o abobalhado. De outra maneira, a publicidade voltada para as crianças apresentam cada vez mais a competitividade e a necessidade insaciável de aquisição de produtos de consumo, carcterísticas típicas do universo adulto e, mais especificamente, da esfera profissional.

Tudo bem, vamos admitir que isso não é lá muita novidade. Uma canção bem conhecida já anunciava secretamente essa reviravolta quando entoava: "Tantas crianças já sabem/Que todas elas cabem/No nosso balão//Até quem tem mais idade/Mas tem felicidade/No seu coração". Mas parece que chegamos a um nível imprevisível, em que não podemos mais titular nada de "adulto" ou "infantil" de maneira tão ingênua.





Sexta-feira, Outubro 12

Foi então que se ouviu um trovão e o silêncio se sucedeu por todo o terreno baldio. Ninguém por perto passava, somente a sombra massiva daqueles dois oponentes se assomava no escuro da madrugada. Permaneciam frente-a-frente estáticos - entre eles nada se interpunha. Estacando fundo nos olhos do anjo, o jogador pronunciou com firmeza: "você não viu que eu podia te salvar?". Meio abaixado, tentando firmar-se sobre seus joelhos, o anjo encolheu por dentro tragado pelo vão profano aberto dentro de si. Suas asas sangravam agora despetaladas, sem qualquer sinal da força vital que ali se via antes emanada. Num movimento lento, seu rosto se voltou ao chão, como se esperasse alguma intervenção vinda da terra.

- Eu podia ter salvo sua vida! o que vai ser agora então?

A cicatriz nas costas do anjo se abriu voluntariamente, rasgueando todas as fibras de sua vida, desde a esquecida infância até aqueles minutos da mais suja vergonha. Esse gesto fundamental trincava a espinha do anjo, fazendo ecoar sua dor nos sacos de lixo e nos amontoados de terra que estavam ali em volta. Agora, já se apoiava no chão com os punhos fechados, tentando inutilmente controlar seu corpo que vibrava convulsivamente.

O jogador resmungava qualquer coisa entre dentes, enquanto assistia sua sorte se esvair na terra batida. Ele, que sempre acertara, dessa vez perdeu por causa de um golpe de azar inisuspeitável. Seus olhos percorriam os contornos do corpo do anjo, observando fatalmente aquilo que não podia impedir. Ouvia os gemidos febris do parceiro, que agonizava e debatia suas asas feridas no chão flapeando ruidosamente. E o jogador nada falava. O ar todo em volta estrepitava, mobilizando a matéria morta daquele lugar desolado. Com a postura firme dos que blefam sem nem mesmo precisar, o jogador interrompe a agonia do anjo com um golpe súbito em seu coração. Calado, ele recolhe seus dados, seus fardos e parte a caminho dos seus próximos acasos.





Quarta-feira, Outubro 3

¡A soneca flagrante do professor doutor José Luiz Fiorin durante uma apresentação no VI miniEnapol de Semiótica (FFLCH/USP)!