Sexta-feira, Junho 29

Como demolir a imagem de uma empresa

A mais nova campanha dos produtos da Linha Fit Light da Itambé mostram que a estupidez crônica não é um privilégio dos jornalistas - todos os profissionais de comunicação em geral invejam essa patologia. Dessa vez, foi a empresa de laticínios que, junto com sua agência de publicidade, saiu na frente na corrida da imbecilidade.

As peças que anunciam o novo produto mostram cenas de cinema consagradas, mas protagonizadas por modelos gordinhas que parodiam as atrizes originais. O título do anúncio na barra preta inferior proclama: "Esqueça. O gosto dos homens nunca vai mudar. Itambé Fit Light.". Logo ao lado, a foto do produto assinando a obra-prima.



Semio-mercadologicamente*, é um verdadeiro desastre. Em tempos de guerra do tráfico no complexo do alemão, pode-se dizer também que foi um tiro no pé. Entre todos os possíveis argumentos para se vender um alimentício light, a agência escolheu o pior. Ainda pior: a empresa aprovou a campanha.

Todo esse ambiente estético midiático, a chamda 'ditadura da magreza' e os padrões de beleza divulgados pela moda criam um meio apropriado para a procriação e o crescimento de criações de péssimo gosto vendendo aparelhos de ginástica, produtos light, planos de academia entre outras coisinhas. Tudo isso já constitui uma atmosfera sufocante e abafada que leva as mulheres (ou pelo menos, algumas delas) a fazer planos alimentares insanos, com dieta dos pontos, das sopas, do alfabeto, dos sucos, dos grãos-de-legumes-desidratados-e-colhidos-por-monges-indianos.

A foto do anúncio tem um tom claramente satírico, subvertendo as cena do filme com uma mulher fora dos 'padrões de peso e beleza'. Substituir uma atriz magérrima (que corresponde ao perfil da minoria das mulheres) por uma modelo gordinha (que, se não é a maioria, certamente corresponde a um número maior de mulheres) foi uma péssima maneira de (tentar) criar um efeito de humor. Traduzindo em outros referenciais, equivale ao caso das caricaturas de Maomé no jornal dinamarquês, ou então contar uma piada de loira para uma loira.

O conteúdo da frase pode ser óbvio e irrelevante para alguns, mas também porta uma carga ofensiva nociva à imagem da própria empresa. Verbos no imperativo são muito suspeitos: nesse caso, ele pulveriza todas as esperanças da mulher gordinha de ser gostada/amada pelo que ela é, e não por um número na balança. A ameaça é ainda mais polêmica se considerarmos que 'esquecer' não é - vamos dizer assim - algo que se possa ordenar a alguém. Se eu digo "Esqueça meu nome" para alguém, essa pessoa irremediavelmente se lembrará do meu nome nesse exato momento. Quando se trata de beleza e auto-estima, isso pode ser um tanto cruel e complexo**, não?

A frase que segue afunda o que já era catastrófico. O tom categórico e asseverativo dá a entender que todos os homens são iguais ("os homens"), que eles sempre serão iguais ("nunca") e que eles gostam das magras - e só das magras (a contraposição irônica entre "o gosto dos homens" e a imagem). Três pressupostos em uma única sentença sentenciam o bom-senso do consumidor desatento.



Em primeiro lugar, a idéia de que os homens são todos iguais só é razoável em rodas de fofoca e revistas "femininas" (ah, nas "masculinas"*** também). Em todos os outros contextos, isso é um tanto simplista.

Em segundo lugar, podemos recorrer ao velho adágio de Peter Pan: 'nunca diga nunca!'. Afirmar tão incisivamente que os homens nunca mudarão de gosto revela uma certa ignorância ou preguiça mental de quem fala/concorda. Se tomarmos um exemplo bem exagerado, podemos lembrar que por volta do começo do século XX, o padrão de mulher bonita era a gordinha burguesamente rechonchuda e pálida. No futuro não muito distante, uma irônica reviravolta da história tornará esse anúncio ridículo.

Em terceiro lugar - e tem muito a ver com o segundo tópico: quem gosta de osso é cachorro. Bom, alguns homens são e gostam de ser chamados de cachorro. Não é o meu caso. Modelos são bonitas sim, mas não são o único padrão de beleza. Aliás, deve-se lembrar que existem modelos de passarela**** e outras modelos, como as de vestido de noiva, que não podem ser muito altas (pelo contrário, tolera-se muito mais as baixinhas) e nem tão magras. É claro, há diferentes meios de uma mulher ser bonita: envolve auto-confiança, charme, postura, proporções... mas isso tudo já é papo para outros textos.

Esse anúncio deixa evidente como a noção do que é engraçado é bem mais relativa do que Einstein poderia prever. Colocar as gordinhas no lugar onde originalmente tinha uma magra foi um golpe de humor duvidoso, bem parecido com aqueles filmes americanos abobalhados, em que toda a graça do filme está no excesso de peso do protagonista e da tradução horrorosa usando qualquer trocadilho com "da pesada". Quem é que gosta de ouvir uma piada, quando a vítima da história é você mesmo?

Três pressupostos atirados na cara do consumidor, como uma pistola de repetição automática (é, o caso do RJ é complexo). Uma rajada de estupidez que disparada por nossas telas e revistas e aceitamos calados. É fato que a publicidade costuma usar expedientes agressivos para promover seus produtos gloriosos e milagrosos. Mas até que ponto podemos assistir tudo entediadamente, como se esperássemos sentados a programação normal voltar?




* Sim, eu quero ser o Floch quando crescer. =)
** Não vou chegar nem a tocar na questão da auto-imagem. Pano demais para essa manguinha.
*** Questão de gêneros e imagens. Também, muito assunto para pouca capacidade verbal.
**** Uma observação ainda em tempo: modelos de passarela devem ser muito magras, pois no desfile o que tem que ser belo e notado é o figurino, e não a modelo. Se o corpo dela for bonito de verdade (e não esquelético),as belas curvas femininas chamarão mais atenção do que a roupa, e não é isso que os estilistas pretendem.






Quarta-feira, Junho 27

E lá vem o..



(vamos ver se Cremogema e Danoninho salvarão minha pele..)





Sábado, Junho 23

Já que eu ando tão calado ultimamente, deixa que ele fale por mim ..


Saiba
(Arnaldo Antunes)

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você






Quarta-feira, Junho 13

Navegando o rio abaixo
Rio acima, pelo rio,
Por metamorfoses mil
Vou descobrindo eu
Em silêncio fecundo e sério
Com quantos pais se faz uma canoa





Sábado, Junho 2

De agora em diante...

eu proíbo todo aquele que a mim se dirgir de pronunciar as palavras "democracia", "política" ( e seus respectivos derivados), "estado", "direito", tão bem como o prefixo "pseudo-", sem ser minimamente capaz de discutir esses conceitos. Ah, também tenho de lembrar que Rousseau e o seu contratualismo me dão alergias.

Para des-terminar, um pequeno poema:

O Analfabeto Político
(Berthold Brecht)

O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e o lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.


e o devir...