Sábado, Maio 26

Ministério da Saúde adverte: plurivocidade traz doenças renais e pode provocar aneurisma cerebral.

Que me desculpem os adeptos da literatura, da metáfora e afinidades, mas definitivamente tenho relações delicadas com a tal ambigüidade. Sempre fui partidário mesmo da denotação, ainda que tenha sido taxado de chato por causa disso. Em casos extremos, uma metonímia, vá lá. Mas existe um punhado de bons motivos pra não gostar de profusões de sentido:



Chaves


Ken


e Barbie!


Pinky ...


Super-homem ...


... e seu grande parceiro, o Homem-morcego!


A Deusa do Amor


Não! Eu quis dizer Vênus!


Leão


Uma celebridade da cultura brasileira, Roberto Carlos


Quero dizer, o Rei


A Dama de Ferro


E o Homem de Gelo


Lista de documentos para ser enviada a um processo seletivo de intercâmbio.






Segunda-feira, Maio 21

Cala a boca, jornalista! (02)

De fato, a imprensa está conseguindo marginalizar a mobilização estudantil com direito a todos os epítetos pejorativos de que a "classe média" (não é uma questão de nível financeiro, mas cultural), jornalísticamente ingênua e sócio-politicamente analfabeta, conhece. É só ver o que os editores da revista de maior tiragem do país estão publicando por aí. Por motivos óbvios, só são permitidos comentários que são favoráveis à opinião da revista, com direito a 'remelentos', 'mafaldinhas', 'molecada', 'republica socialista do sucrilhos' e outras expressões supostamente ofensivas. Uma observação a tempo: muitos personagens da cultura brasileira - música, teatro, literatura e política em geral - já estiveram do lado dos "remelentos". Surpreendentemente, até mesmo o próprio Serra (e também - não esqueçamos - um tal de CARDOSO F. H.) era um "remelento" há alguns anos atrás. Parafraseando B. Brecht, Serra trocou de lado por um punhadinho a mais de notas. O problema é que esse notas estão indo pelo buraco, ou melhor, pelo rombo do orçamento estadual que está passando - surpreendentemente - despercebido. Depois da "bravata" com a Nossa Caixa, não dá pra negar a situação - delicada, digamos - do governo estadual.

A história toda começou com o Lembo e se delonga agora com Serra, que arranjou uma escapatória providencial para o grande pepino que lhe caiu nas mãos. Com esse problema mais do que iminente, pareceu uma boa alternativa ao governador enxugar os orcamentos gastos com os "remelentos e mafaldinhas". Para tal tarefa, nada mais prático e eficaz do que separar aquilo que é bradado e prometido nas eleições genericamente como "educação" em três secretarias diferentes: Secretaria da Educação e Secretaria do Ensino Superior. Algum leitor minimamente atento vai notar que está faltando uma. Pois é, esse é o truque: as FATECS, que antes eram ligadas à UNESP, e a FAPESP, principal agência financiadora de bolsas de mestrado e doutorado, vão passar para a Secretaria do Desenvolvimento.
Sem contar as conseqüências acadêmicas da questão, essa medida é muito conveniente quando se trata de manobras financeiras. As universidades perderão muito da verba que antes dispunham, as FATECS e a FAPESP vão virar ferramentas operacionais de pesquisa com influência questionável da iniciativa privada e o principal: toda a aprovação orçamentária passa pela aprovação da instância estadual.

A gerência das verbas da universidade por alguém completamente exterior é extremamente prejudicial: dificulta a contratação de professores, a aprovação de bolsas de pesquisa e investimentos e todas suas incoveniências. Ao final das contas, deixa todas as contas ao bel-prazer de uma instância política exterior à universidade e suscetível às instabilidades e oportunismos da cena político-partidário. O secretário J. Pinotti em diversas entrevistas argumenta que a nova disposição secretarial "aproxima pesquisa e desenvolvimento". O que fica pressuposto aí é que a universidade não traz desenvolvimento e portanto, não vale a pena investir nela. A noção empresarial e utilitarista de "deenvolvimento" fica evidente. O que fica mais evidente ainda é a contradição da postura do governador Serra, especificamente.

Armado de projetos mirabolantes, como o projeto Oye! (para a formação "fast-food" de professores de espanhol) e a idéia de duas professoras por sala, Serra se elegeu anunciado suas novas medidas para a educação. Agora, eu me pergunto: essas reformas pedagógicas se incluem na rubrica "desenvolvimento" proposta pelo governador? Se a formação básica do aluno é importante, para que esse possa alcançar - justamente - a universidade, não deveria ser considerado como "desenvolvimento"? Como fica a questão pedagógica aí?

Se algum partidário dessa política educacional tentar responder essas perguntas, deixará evidente que há sérias contradições nessa postura adotada por Serra. O subterfúgio de criar uma "fábrica de professores" pode ser muito conveniente para tentar responder a esses embaraços. Mas não parece um contra-senso a idéia de colocar dois professores em uma sala primária, ao invés de investir em estrutura e capacitação profissional dos já atuantes? Uma retórica de "desenvovimento" um tanto suspeita ...

Se retomarmos o "probleminha" do rombo orçamentário, faz todo sentido que justamente a polícia seja ativada para o desocupação da reitoria. Agora é preciso repensar de quem é a culpa do barranco financeiro do estado: dos gastos supostamente inúteis da acadêmia ou da própria ingerência do Estado com o problema das pensões militares - estrategicamente invisível na mídia?

Caso ocorra de fato a ação militar - apelidada convenientemente pela "grande mídia" de "reintegração de posse"-, o cenário se assemelhará muito a uma disputa de video-game, na qual se enfrentarão dois lados para decidir com quem vai ficar a verba pública. Um episódio bem patético, na verdade.

O conflito de dois ideários inconciliáveis - agora recorro à Fiorin - está claramente manifestado na linguagem. Agora, temos a "reintegração de posse" contra a "invasão do patrimônio público". Uma oposição greimasianamente adequada para o posicionamento dos jornais. É evidente que a comissão de imprensa dos estudantes empregam outros termos. O embate entre duas posturas políticas opostas torna-se flagrante na mídia, por excelência o espaço do conflito ideológico. Porém, no Brasil a mídia e o jornalismo fazem mais do que relatar os fatos: eles criam os fatos. É preciso muita perícia interpretativa e uma boa carga de instrução para não se deixar ludibriar pelas semi-verdades publicadas em margens pretensiosamente sérias.





Quarta-feira, Maio 16

Cala a boca, jornalista!

Com toda a movimentação em volta da greve Uspiana, movimentos, providências e assembléias, vou assumir neste cenário um papel que julgo razoável: observar - de sobrancelhas franzidas - as bobagens e alardes que fazem por aí do movimento estudantil.

Aos desavisados, é melhor que nem tentem me criminalizar por nada, pois não sou um esquerdista em 1969 nem uma bruxa no século XVI. Sim, sou a favor da greve. Isso não me dá o direito de bradar qualquer coisa por aí, como acontece freqüentemente com richas infrutíferas entre os próprios estudantes. Na verdade, me proponho a descascar algumas inverdades que colocam o movimento estudantil das grandes estaduais (USP, UNESP, UNICAMP) como inimigos da ordem civil e do progresso da sociedade. Só isso.

Toda essa idéia não vai (ou não deveria) se ater ao espaço ínfimo de um post. Como um pontapé inicial, pelo menos, quero mostrar certos flagrantes jornalísticos que não podem passar despercebidos. O público em geral pode acreditar na 'imparcialidade' editorial e ficar embasbacado com o 'vandalismo' destes 'estudantes vagabundos'. Vamos ver - agora - porque as coisas não são como parecem:



"Os funcionários decidiram ocupar o prédio em uma assembléia realizada nesta quarta, devido ao risco de represália contra os estudantes, que invadiram a reitoria há 13 dias"

Que represália seria essa? A pauta foi decidida conjuntamente com ADUSP, Sintusp, o DCE e os CA's das faculdades. (...)Ademais, essa regência nominal "represália contra __" soa estranha. Suponho que o jornalista quis dizer "represália dos estudantes". Talvez alguma espécie de truque lingüístico (...) Os estudantes "invadiram" a reitoria? Isso soa meio suspeito, como veremos ...


"Invasão da Reitoria

Os estudantes da USP invadiram ocuparam o prédio no dia 3 deste mês. Na última terça-feira a reitoria deu um prazo para os manifestantes desocuparem o local, mas eles decidiram continuar o protesto."

No subtítulo lemos "invasão". Porém na linha seguinte, por alguma espécie de ato falho ou lapso de estresse do redator, lemos duas palavras onde só poderia aparecer uma delas: "invadiram" e "ocuparam". Esse descuido fatal delatou a hesitação do jornalista na escolha entre estes dois termos. O verbo "ocupar", de conotação bem mais amena, disputa espaço com "invadir", que já remete à violência, guerra, sem-terra e outras questões político-editoriais ...


"Segundo a assessoria da universidade, a reitora se reuniu com uma consultoria jurídica na noite de terça e deve tomar medidas judiciais para conter a invasão"

Não há como "conter a invasão". Essa expressão caberia muito bem se Julio César estivesse falando das hordas mongóis ou dos raides vikings. Aqui, soou como uma marca inegável das intenções do interlocutor. O jornal dessa vez se absteve da responsabilidade da palavra com um providencial "Segundo a assessoria da universidade". Mesmo assim, isso não é o suficiente para salvar sua pele. De fato, "universidade" recobre muitos setores diferentes - de opiniões diferentes, portanto - e não fica claro exatamente quem deu a palavra. A reitoria? A pró-reitoria? Sindicatos? Prefeitura do campus? Suspeito ...


A reitoria da universidade divulgou na terça-feira uma nota na qual reitera o pedido de desocupação. ¿[A reitoria] condiciona o atendimento das propostas à desocupação do prédio da Reitoria até as 16h do dia 15/05/2007. Assim ocorrendo, a Reitoria se dispõe a prosseguir na análise dos temas da pauta de reivindicações, por comissão de professores e alunos, a ser constituída após a desocupação¿.

Agora, quando se trata da palavra da reitoria, explicitamente, temos o termo 'desocupação'. Vá lá, 'desinvasão' não é minimamente razoável. Mas os outros antônimos de carga igualmente agressiva foram evitados: 'retirada', 'desalojamento' entre outros. (...) A reitora não compareceu - e sequer mandou um representante - quando os estudantes solicitaram uma audiência pública com os alunos para discussão da pauta unificada. Pode-se acreditar mesmo que ela assumirá ainda o compromisso de debater as propostas? O 'pedido de desocupação' não parece um pedido muito compatível para quem não se dignou a dar um posicionamento claro perante aos decretos do Serra (que, apesar de ser o principal motivo das mobilizações, ainda não foi mencionado nessa reportagem).


"No último dia 10 a reitoria divulgou um comunicado em resposta às reivindicações dos estudantes. Nele, a reitora apresentou as propostas que poderia cumprir, mas foram consideradas insuficientes pelos manifestantes"

Completamente verídico. Sim, o tal documento foi lançado e sim, os estudantes rejeitaram. É só ler documento para ver que a reitora propõe algumas reformas como forma de amenizar a situação, mas se esquiva do ponto principal: os decretos de Serra. Faz apenas uma raquítica promessa de reunião, com a condição estrita da desocupação da reitoria. Evidentemente, o público "extra-USP" pode se impressionar com a proposta de construir "198 vagas no Campus Butantã" e, assim, se indispor com a rejeição do movimento estudantil. O fato é que a ocupação tem como primeiro objetivo obter o posicionamento da reitora frente aos decretos, e não uma promessa de reunião com o Conselho Universitário. Enquanto a reitora não se declarar contra os tais decretos, os estudantes insistirão na ocupação. Pressionada assim entre o poder hierarquico do governo - que escolhe por indicação direta os reitores da universidade - e o movimento estudantes+professores+funcionarios, Suely Vilela deve inevitavelmente tomar algum partido e arcar suas conseqüências. Para a infelicidade dela, não há meio termo dessa vez.


"Cerca de 200 estudantes se revezam para manter a ocupação que exigem que a USP se posicione publicamente sobre os decretos do governador José Serra. Para eles, os decretos ferem a autonomia da universidade, que passaria para as mãos da Secretaria de Ensino Superior, à qual estão ligadas as universidades públicas paulistas"

Finalmente o 'leitmotiv' da situação toda aparece no texto: somente no último parágrafo. Fato relevante em se tratando de jornalismo eletrônico, em que todas as notícias se reciclam muito rapidamente e a leitura é breve. (...) Norma Discini me ensinou e eu não esqueci: com um habilidoso 'para eles' e uma sintaxe desajeitada, o jornalista tenta jogar a culpa nos estudantes. Primeiro: os decretos ferem a autonomia da universidade de fato, e não só 'para eles'. 'Eles' se opõe - lingüisticamente - a 'nós'. Implicitamente ficou conotado que "para nós, os decretos não ferem aautonomia da universidade". Uma perfeita gafe semântica jornalística. (...) Segundo: a aparente obviedade da declaração 'passaria para as mãos da Secretaria de Ensino Superior, à qual estão ligadas as universidades públicas paulistas' pode deixar as mobilizações com cara de patetice ignorante. O que a reportagem não esclarece é o remanejamento do Centro Paula Souza, das Fatecs e da FAPESP para a Secretaria do Desenvolvimento Nacional. Implicitamente ficou conotado - e mais grosseiramente ainda que o tópico anterior - que as universidades não fazem parte de maneira nenhuma de um tal 'desenvolvimento nacional'. Ora, se onível superior da educação não servir a alguma espécie de desenvolvimento, então se tornará simplesmente em uma 'escolinha de gente grande' ou, no máximo, uma 'fabricadora de profissionais diplomados'. Um erro político crasso do governo estadual. Maior erro foi supor que os docentes/discentes universitários não fossem perceber tudo isso.


"Que a Reitoria atenda as necessidades de moradia estudantil (formulação de um projeto de longo prazo para todos os campi; a construção imediata de três novos blocos de moradia no campus Butantã, que abram 594 vagas, bem como a reforma dos blocos existentes; a garantia de moradias decentes para todos os estudantes alojados no CepeUSP e no Crusp"

Até daria risada se eu não fizesse parte de tudo. Outra informação que a reportagem omitiu (ou desconheceu: aqui, tanto faz) é o projeto da construção de um hotel de luxo no Campus Butantã da USP para o alojamento de professores visitantes. A idéia parece até boa, se não considerarmos que esse projeto consumiria a verba que seria destinada à construção e reforma das moradis estudantis e dos prédios das faculdades. Não, não é 'baderna' de estudante. Quem viu a cachoeira da sala do prédio da Geografia sabe que a situação é mesmo crítica. É claro que os estudantes das faculdades com verbas privadas não apoiam essas reivindicações: eles não sabem o que é isso. (...) "os estudantes alojados no CepeUSP"? Foi algum tipo de piada isso? Até onde eu saiba, não existe ninguém morando no Cepê. Nem mesmo os folclóricos cachorros da USP. Para quem não conhece, acredita mesmo que existam moradores num lugar onde na realidade só há quadras, piscinas e pistas de corrida. Por alguma espécie de empolgação retórica, o redator enfiou qualquer acrônimo terminado em {-USP} para tentar engambelar os leitores. Para quem conhece minimamente a cidade universitária, sabe o quão cômico foi isso. Outra gafe grosseira.



Essa cachoeira de bobagens só não é mais desastrosa do que aquela do prédio da História e Geografia. De resto, tudo a perder. Numa única reportagem, dá pra ver uma enxurrada de gafes que, além de não saber exatamente do que está falando, parece tentar incriminar a classe estudantil. Se somarmos esta com as outras reportagens que correm por aí, não fica difícil entender os resultados das pesquisas de "opinião pública". Por isso, digo: cuidado! A imprensa está, sem sombra de dúvida, contra a greve uspiana e o movimento estudantil. Problema maior é que ela insinua que isso tudo contraria e prejudica a sociedade de alguma maneira, criando uma sensação de batalha do "bem contra o mal", que passa longe da realidade dos fatos.

Estou de olho em vocês, jornalistas.






Domingo, Maio 13

A visita do Papa ao Brasil



"Sim, na verdade sou Darth Ratzinger! Venha para o lado negro da força, Lula ..."





Sexta-feira, Maio 11

Anedotas musicais: Na noite em que a caixa e o bumbo resolveram transar, todo mundo ficou surdo.





Terça-feira, Maio 1

Num domingo de manhã

Um homem estava sentado num banco de praça, com o queixo apoiado no punho fechado e olhando fixamente para frente em direção aos modelos de uma loja de roupas. Apesar de não ter sinais de cansaço, já devia estar lá há um bom tempo, pois mesmo quando o primeiro velhinho foi à padaria buscar pão, ele já se encontrava lá. E ao passar do dia, os outros velhinhos foram comprar pão, voltaram, os homens foram buscar um frango assado, as crianças foram comprar o jornal para os pais, alguns carros passavam. E o homem continuava ali. Como permanecia ali imóvel, com seus olhos vidrados na refinada vitrine, a funcionária da loja achou mais seguro notificar um guarda. Este, um tipo alto e sem peculiaridades, atendeu ao pedido da moça e abordou aquele estranho desconhecido. Com um brado grave de intimidação, perguntou-lhe: "O que o senhor está fazendo aí?". Como ele não reagisse, cutucou-o firmemente com o cacetete e perguntou: quem é você? Ao que o homem respondeu: "É justamente o que venho tentando descobrir".







Tem dias que a gente só quer é ficar quietinho