Domingo, Agosto 27

O abridor de latas

Sempre me ensinaram que foi deus que fez e mundo e todas as coisas que tem nele. Mas eu sei que não foi não, e nem preciso discutir muito pra saber disso. Que ele possa ter engenheiramente projetado o universo, tudo bem, mas tem um montão de coisas por aí que não foi ele que fez e uma delas é o abridor de latas.

É claro que quando o mundo começou a ser mundo, ainda não exisita lata e tudo era melhor assim. A comida ou crescia em árvore ou então pastava no mato. Se precisasse de guardar as coisas, tinham cestos, garrafas, vasos ou potes, conforme o jeito da coisa guardada. E tudo era bem simples assim, ninguém nem gastava cabeça com isso: e por que é que haveria de gastar?

Mas um feio dia, um macaco pelado teve a idéia tinhosa. Não se sabe quando e nem como isso aconteceu, mas veio ao universo a lata. Nenhum estudioso até agora descobriu como se deu o surgimento do primeiro casal de latas, mas o fato é que eles se aninharam em um galpão qualquer, em meio ambiente seco e arejado, e começaram a se reproduzir. Cresecram, semultipilicaram, colonizaram o mundo, e ainda a gente vê publicamente, na maior sem-vergonhice, as latas se acasalando umas em cima das outras em todo lugar que se vai.

E do mesmo jeito que ninguém-sabe-como apareceu no planeta o abridor de latas. Não, com certeza isso não foi feito na gênesi do mundo. Troço feio, esquisito, se fosse gente dava nojo de antipatia. Com um cabo - cabo não, tá mais pra pegadouro aquilo, cabo lembra muito mais vassoura - um cabo um pouco encurvadinho, parecendo gente corcunda, curtinho de nem caber os dedos da gente, tem um buraco até que charmoso para abrir garrafa de cerveja (de pinga mesmo não precisa dessa complicação aí não): no topo desse vazado, tem uma curvinha que embica pra dentro, que nem coração que as meninas desenham, que se a gente vira de ponta cabeça fica parecendo bunda nua de mulher sentada no lençol quando tá de costa pra gente já querendo ir embora. Só que a mulher mesmo quando tá feia é bonita mas abridor de lata mesmo quando tá bonito é feio demais.

Despontando na lateralzinha, sai a ponta de furar a lata, meio curvo de garra de bicho, meio lembrando um vampiro banguela. Embaixo pertinho do dente, tem uma chapinha protuberante que forma um ganchinho invertido, na vertical enquanto o dente fica meio na horizontal. Se fosse maior, dava pra falar que é coisa de alemão, iam proibir de sair na rua. Estranho e feioso, só o hôme que sabe das coisas da vida é que sabe porque que o abridor é assim.

É coisa que é e pronto, ninguém sabe, nem quer saber e teria raiva de quem sabe se por acaso conhecesse alguém que. Nem o chifrudo ia pensar de inventar um troço assim, só pode ser coisa do bicho-homem mesmo, que ganhou um mundo de graça só pra ele e agora fica inventando sarna pra os outros coçarem, e é o que o todo mundo só tem sabido fazer desde sempre. Se deu pra inventar máquina de lavar, máquina de escrever, máquina de matar, por que não máquina de abrir?
Pois essa é a idéia de inventar as coisas: inventar outra por cima pra remendar o aparecimento da primeira. E depois outra ainda pra tentar melhorar a anterior e mais uma quarta ainda para tapar os buracos que a revolucionária novidade trouxe. E só depois a gente vê que do jeito que tava era bem mais fácil.

Não dá pra falar que o abridor de latas não é útil e que não é bom. Todo mundo tem um em casa e não dá pra substituir por nenhum outro objeto que se tenha. Funciona. Ao contrário do bicho-computadô que sempre empaca, abridor nunca falhou e nem nunca vai falhar. Vendo assim, até que o bichinho é obediente. É feio mas não falha. Mas também é só terminar o serviço, sua pequena eternidade heróica de trilhar os arredores da tampa, e ele logo volta para onde veio, e lá fica longamente esquecido até que algum dia por algum incidente alguém o chame novamente. Nesse enquanto, ninguém lembra que ele existe, nem pergunta por ele, abandonado no fundo de uma gaveta qualquer. Na hora da necessidade, todo mundo apela pra ele, corre e procura afoitamente. Ah que desespero se não achamos o bendito do abridor! onde é que foi que eu coloquei o tal? Afinal, nada pode continuar sem ele.

Porque o proceder do abridor é praticamente mágico, que pouca gente no mundo vai entender antes de morrer. Num encaixe firme, a ponta vai rasgando lentamente a superfície inteiriça da tampa. De outro modo, é impossível tirar aquilo que tem dentro da lata e o que tá dentro fica dentro e quem tá fora não sabe o que é que tem. Às vezes quando a lata tá amassada a gente nem faz questão de abrir porque já sabe que o que tem dentro não presta: joga fora. Mas o que mais acontece é o de a gente não saber o que tem dentro, e só descobre quando abre. Pode ser que o produto tá estragado, e aí logo a gente percebe porque sai um fedor desgraçado, mas então já é tarde, o dinheiro já foi pro lixo e a lata logo logo vai também, sem contar a amolação que é gastar muque em cima do abridor pra se decepcionar assim. Ou então se o produto tá bom, a gente aproveita, põe na comida, fica uma delícia e pronto.

Só que depois disso, o abridor volta pro gueto de onde veio. Nem parabéns, nem obrigado nem volte sempre nem nada. Fica lá desprezado que nem dó dá. Assim mesmo, paradinho e imortal, porque a gente nunca lembra da vez que foi comprar um abridor de lata. De feio que é, nunca aparece com os outros talheres. Está sempre ali pro que precisar, mas ninguém se compadece dele. ¡Pobre abridor! nem deus te ama, não foi ele que fez você. E também eu mentiria se dissesse que te amo, mas não posso negar que lembrei dos seus serviços, por agora. Mas nada demais também, depois deste ponto final, eu também já terei esquecido.





Segunda-feira, Agosto 14

Arqui 90- 03. Violência Oficial
categoria: Cotidiano

Depois que acabou a ditadura militar, os brasileiros puderam respirar o ar refrescante da liberdade. Mas junto com ele também veio o aumento da violência. (já que não tem mais DOPS nem ROTA circulando por aí) Bom, na verdade violência é coisa que tem e sempre teve, às vezes escondido ou ignorado. Mas nos anos 90, o coro comeu solto especialmente porque os processos de condenação dos culpados, na maioria das vezes oficiais, se estenderam por alguns anos, colaborando com a imagem de justiça burocrática sonolenta que o Brasil conquistou com muita luta. E como não podia ser diferente, herdamos (in)dignamente esse hábito do quebra-pau, caprichosamente incrementado nos dias de hoje.

Em 92, uma rebelião no Pavilhão 9 do Carandiru (SP) é reprimida pelas tropas de choque num conflito (¿quando só um dos lados bate, ainda é 'conflito'?) que resultou na morte de cento e poucos detentos. Depois do fato, 'carandiru' virou sinônimo de 'porrada'. O caso mobilizou até órgãos de direitos humanos, alguns anos depois virou filme. Já nascia aí as sementes da civilização carcerária que conhecemos hoje.

Em julho de 93, um grupo de homens armados atirou em crianças de rua que dormiam na igreja da Candelária (RJ). Morreram oito, mas nasceu o sentimento de insegurança quando mais tarde foi apurado que os autores dos disparos eram policiais.

Em agosto do mesmo ano, cinquenta encapuzados dispararam com metralhadoras e escopetas contra os moradores na Chacina do Vigário Geral (RJ). Vinte e um morreram. As investigações apontavam para atividades ilegais praticadas pelos policiais autores do crime, envolvendo até mesmo esquema de propina.

Em 95, um confronto entre policiais, latifundiários e sem-terras vira polêmica pela ação desmedida da força policial. Dizem as lendas (?) que no caso Corumbiara também houve jagunços trazidos pelos fazendeiros donos das terras ocupadas. Dois policiais e nove sem-terras morreram, além dos vários feridos e o estardalhaço na televisão, que manchava ainda mais a imagem da polícia.

Em 96, novamente outro conflito envolvendo sem-terras e oficiais. No massacre de Eldorado dos Carajás (PA), policiais federais (não-fardados) utilizaram violência desmedida na tarefa de desobstruiur uma rodovia ocupada por protestantes sem-terra. Teve até video-clipe gravado por um conegrafista amador e repetido à exaustão nos jornais da rede globo, com direito a toda espécie de tira-teima possível na esperança de encontrar os verdadeiros culapdos e elucidar o caso (!)
Droga! não achei foto!
Em março de 97, as imagens gravados por um (outro) cinegrafista amador chocaram a opinião pública. Os casos de abuso de poder flagrados na Favela Naval, em Diadema (SP), demoliram de vez a credibilidade das instituições públicas da segurança. Estava claramente provado que "policial" e "bandido" não são exatamente antônimos. As cenas de tortura deliberada contavam com requintes de crueldade, em destaque a cena marcante de um policial batendo com cacetete no pé do motorista, deitado sobre o capô do carro, que acidentalmente passou pela "blitz". Também, tinha a cena em que um dos carros detidos pela falsa operação deu uma arancada (depois de os passageiros sofrerem os inimagináveis abusos) e um dos policiais, posteriormente reconhecido como Rambo, dispara três vezes contra o carro e assassina o motorista. O clipe com as imagens passava diariamente, para ninguém se esquecer do ocorrido.

Em abril de 97 (¡também!), quatro jovens da classe média-alta de Brasília (DF) incendiam o índio Galdino, da tribo dos Pataxós, que dormia numa praça após ter voltado das comemorações do Dia do Índio na capital brasileira. Um assassinato covarde e desmotivado. Os próprios autores (um deles à época do crime era menor de idade) declararm que era "só uma brincadeira". brincadeira essa que foi cuidadosamente premeditada. Mas como eram filhos de gente influente [=filhinho de papai deputado] (e isso é especialmente importante quando se fala de planalto central), o processo foi se arrastando longamente. Logo se vê que crime de elite não é novidade de agora.


Definitivamente, não há motivos de estranhar a situação crítica da segurança atual. Ela tem raízes fortes e nem tão misteriosas assim, o que tira o direito de qualquer um [em sã consciência] de se lamentar penosamente sobre 'como o mundo ficou tão violento' (geralmente papo de evangélico redencionista). Isso sem contar nos casos de violência individual (homicídios doloso) e da violência nos estádios. A propósito, nos dias de hoje, ninguém sabe e ninguém lembra de perguntar o que foi feito dos culpados. Todos esses episódios serviram pra confirmar o que Toni Belloto já dizia nos anos 80: "Polícia para quem precisa de polícia." e que foi bem resumida nos anos 90 por Lúcio Flávio (a propósito, um traficante): 'o Brasil seria um bom país se a polícia fosse polícia e o bandido fosse bandido'

[se esqueci de algum caso importante, por favor, escrevam/enviem!]





Terça-feira, Agosto 8

Não sei se é só cansaço
ou se é o arroz seco
com feijão mal temperado
ônibus cheio
e a cabeça esvazia

Metralhadoras de manchetes
atiram balas de festim
perfuram minha mente
morreram dois três seis
em qualquer país

Não sei mais só conversar
não posso relaxar
não consigo mais ouvir da primeira vez o que as pessoas falam
E nem sempre acredito no que eu mesmo digo

Ninguém percebe, ninguém vê
Nada adiantaria, também
Nunca sei porque as pessoas falam tanto
E nem sempre isso tem algum sentido

Nada posso, nada quero
nada sei nem sinto que não sei
e a vida vai ficando fanha
preenchida de tanta negação
e se alguém na rua perguntar
"você sabe do que diabos está falando?"
responderei: Não.