Segunda-feira, Julho 31

Tenho medo. Um monte de gente andando em volta, dirigindo embriagada palavra indo vindo anotando vendendo mandando decidindo telefonando processando contratando fofocontando baldeando roubando pressapassando. ¿Quem liga? Da casca pra dentro, nada disso me alcança. Só o ressoar semi-surdo das infinitas urgências simultâneas que fervilham por aí. Do que se mexe lá fora, apenas manchas difusas persombreiam aqui dentro. Profundo eu sei que no meio de toda essa confusão circumvoluinte tem olhos fixos em mim. Tão fixos e tão diluídos no meio dos barulhos da rua, dos objetos da cozinha, das dobras que a sombra faz no canto da parede. Tanto que não posso apontá-los em lugar nenhum, como reflexo de relâmpago, que pisca e some e ninguém vê de onde veio.

E quem é que vai acreditar se disser que vi qualquer coisa com a ajuda desse clarão súbito? Nem de reagir não dá tempo, quem vai acreditar que tinha um rosto retorcido escondido no céu que o raio clareou? Não queria acreditar nas coisas que só eu vejo. Não queria ter de acreditar. Ninguém lá fora me ouve. Eles passam bem perto, se esbarram em mim, pedem desculpas, perguntam as horas, pedem esmolas, cumprimentam, entregam panfletos. Ninguém lá fora pode me ouvir. Película de surdez absoluta que tudo por ela transenxergo mas abafa os sons de lá de fora e amplifica os de dentro, de modo que o menor estalar de folha seca rasga a retina do ar. Um sussurro abafado ressoa por todos os lados do meu corpo, verbera em cada conchacurva o que ainda está por acontecer. Os finofios que ligam-me ao mundo vibram, oscilam, ameaçam arrebentar. Harmonizam com os ecos internos.

Os espelhos se esfumaçaram. Ar borrado me rodeia, me bloqueia, impermeia meus olhos das piscaluzes da noite. Prismacortina translúcida cinza e fumê excluiu esse lugar da rua, da cidade, do mundo e enovelado aqui agora estou. Protegido do exterior, isolado no interior, o véu semilíquido me refrata imagens invisíveis escondidas nas coisas. Dos pescoços distraídos, vapores de pastelcores borrifantes delatam o espírito dos transeuntes. Pés tropeçam os seus donos, pastilhas de freio juram vingança, eletropostes testemunharam um estupro ontem. Palavras entregam intenção, passos prenunciam caminho: o dedotoque invisibiliza a porta. Na abóbada acinzentada, se desenrola o mapa do tempo com muitas cruzatrilhas riscadas serpenteantes. Cenas que saltam, que piscam, que retornam ao pergaminho fantasmagórico preso no céu refletem o brilho fosco de cada vírgula do mundo.

Tenho medo. Transitando entre lugares que não sei se alguém conhece. Ouço vozes subveladas nas vozes, angústias no "bom dia", hesitação nos compassos de uma melodia previsível. Um míssil passa zunindo sobre minha cidade, jornalista amaldiçoa economia, morteiro estoura, chuva alaga, pessoas morrem, pessoas rompem, pessoas se apaixonam, pessoas nascem, pais perdem emprego, meninas perdem virgindade, oficiais perdem vida, filas começam, números diminuem, crises quebram, crises choram, crises morrem, urnas elegem, bala mata, mudos passos mudam. Só. Eu vejo tudo isso. E abraço meus joelhos enquanto o manto escuro me cobre.





Quinta-feira, Julho 27

Olhando para fora da janela do ônibus, hoje vi um dragão de nuvem voando no céu. De branco ralado fino, flutuava em cima do clarazul semi-rosa alaranjado. Ia para o leste, marcando atrás de si um rastro incadenscente. Asas largas abertas recobriam o todocéu, ao longe mirando. Flapear suave carregado de rajadas quentes. Hoje eu fui repatriado.





Quarta-feira, Julho 19

Quando a maré sobe
carrega as pazinhas
baldes e brinquedos

Quando a maré baixa
esquece conchinhas
na areia molhada

Soubéssemos nós
brincar de conchinhas
nada se perdia






Terça-feira, Julho 18

Valor Online
18:33 18/07
SÃO PAULO - A Perdigão declinou da oferta de compra feita pela Sadia


¿Declinou? Empresas estudam latim (ou russo) nas negociações então? De que bueiro saiu o redator desse lixo de lide? Pelo que eu saiba, mesmos leitores refinados da "Valor Econômico"ainda falam português. Essa aberração aí devia continuar somente nos exercícios de línguas, ou voltar pros cafundó de onde veio [do inglês 'to decline']. ¡Jornalistas, hunf!





Terça-feira, Julho 11

Des-Piada

O que a lanterna disse pro prego?






Terça-feira, Julho 4

(Pré-Scriptum: Todos os links do Arqui 90 abrem em uma janela nova)
Arqui 90- 02. Claudinho e Buchecha
Categoria:Música

Eles já foram ajudante de pedreiro e office-boy no Rio de janeiro. Formaram a dupla em 92, só de brincadeira, até que em 95 ganharam um festival (¿) com o Rap do Salgueiro. O primeiro disco, A Forma, saiu só em 97 e projetou a dupla para o sucesso. Em 98, gravaram o CD Só Love, que ajudou-os a continuar em evidência. Depois desses, ainda gravaram mais 3 discos (um deles ao vivo), que naturalmente não fizeram tanto sucesso quanto os dois primeiros.

O ritmo bem característico foi chamado de "funk-melody"(?). As letras não negam que é música de carioca, cantando deslavadamente "Venero demais o meu prazer, Controlo o calendário sem utilizar as mãos" (¿O que é que seria exatamente 'Calendário', ein?), "Olha eu te amo, e quero tanto,Beijar teu corpo nu", "Vou fazer você dançar, sua xereta" (*'Xereta' rima sutilmente com certas partes da anatomia feminina).

Os refrões eram verdadeiras genialidades poéticas, como "Sabe - tchurururu - tô lôco pra te veeer, oh iéis", "Só love, só love, só love, só love ...". No fundo, era tudo só um xaveco de pedreiro aprimorado, adocicado com uns "eu te amo aqui, outros "você pra mim é tudo" por ali.


'Claudinho e Buchecha' é mais um daqueles nomes que viram uma palavra só

A verdade é que a fórmula deu certo, e o som de Claudinho e Buchecha, mesmo que tivesse lá seu tom erótico, era considerado romântico e adequado para todas as idades. A dupla marcava seu carisma em programas de auditório com sua coreografia não-erótica e bem inusitada: uma mão no nariz (como se afogasse) e o outro braço esticado, fazendo marola.

Depois do lançamento de "Fico assim sem você" (regravada depois por Adriana Calcanhoto), lançado já em 2002, ficou provado que dá pra ser popular e falar de amor sem ser meloso ou brega. Neste mesmo ano, a dupla acabou. Claudinho morreu num acidente de carro em uma rodovia de São Paulo.

Só pra tomar um exemplo, a letra de "Quero te encontrar", mais tarde regravada por Paula Toller (mais letras de música, só clicar nos links do próprio texto)


Quero Te Encontrar
Claudinho E Buchecha

Tchurururudacumdú (x4)

Quando você vem
Pra passar o fim de semana
Eu finjo estar tudo bem,
mesmo duro ou com grana

é que você ignora
tudo que eu faço
depois vai embora
desatando os nossos laços

[refrão]
quero te encontrar,
quero te amar
você pra mim é tudo
minha terra, meu céu meu mar
quero te encontrar
quero te amar
você pra mim é tudo
minha terra, meu céu, meu mar

É muita ousadia ter que percorrer
o país inteiro pra achar você
mas tudo o que faço tem um bom motivo
linda, eu te amo, vem ficar comigo
estou alucinado com o seu olhar
vou aonde for até te encontrar
eu te amo demais, você é minha paz
faz amor gostoso, de novo comigo, faz, fa--az,