|
Sábado, Maio 27
nº 0
Recentemente, um certo punhado de autores (e tenha certeza de que não são os literários) têm abrido meus olhos para novos horizontes. Custoso admitir isso, mas não há como negar dessa vez. Por ora, eles estão me fazendo fugir das algemas logicistas da racionalidade, o que pode parecer (pelo menos provisoriamente) uma solução. Se não for, pelo menos terá algum bom proveito
nº 1
Roland Barthes é o primeiro que devo mencionar. E aqui nem tanto pelo seu trabalho como semioticista (ou pioneiro dela), mas sim pelo seu faro apurado em compreender o seu próprio tempo, observando detalhes e costumes que passam desapercebidos por muitos.
Nas coisas pequenas, minúsculas, é que se escondem os traços marcantes de uma cultura, de uma civilização, de um tempo, que Barthes teve a sensibilidade de notar e, para a nossa sorte, registrar isso em alguns escritos por aí. Mais do que guardar suas observações, restou de importante dos seus textos a maneira como ele olhou para o mundo. Analítico e de percepção aguda .
nº2
Marc Bloch também surpreendeu muito. Não só por mostrar a pequenez do meu conhecimento, mas também por trazer idéias novas que, apesar de evidentes, esclarecem muito o campo de visão. Destacando duas das principais idéias: a primeira é a de que a indiferença esconde a familiaridade.
A segunda é a de que é necessária uma documentação a fim de que possamos fazer um estudo concreto de historiografia. Uma frase dele, que só posso lembrar porcamente, diz que se as aduanas não registrarem as entradas e saídas de cada dia, ao final do mês, não teremos como avaliar o desempenho do comércio exterior.
nº3
Tentando somar esses dois caras, comecei a observar as pessoas por aí (¡e isso é um esporte divertidíssimo e viciante!). Dentre tantos hábitos que se vê, um em especial me chamou a atenção. É a expressão 'na minha época', 'no meu tempo', 'a minha geração', ou variantes similares.
Me surpreendi com a freqüência que as pessoas usam isso, mesmo aquelas que não tem tanta idade assim. Desde os mais retrógrados e saudosistas até àqueles que não aparentavam o menor conservadorismo, todos soltam invariavelmente uma expressão dessas, ainda que por um lapso inocente.
É estranho ver como uma pessoa deliberadamente se exclui do tempo atual ao se referir a um suposto "meu tempo". Como se ela pertencesse a um outro tempo que não esse presente e, dessa forma, estivesse automaticamente deslocada de seu ambiente. Como se o 'hoje' lhe fosse algo de estranho, não-familiar, anormal.
Esta pretensão piora ainda mais se somarmos um saudosismo-passadista nisso. No melhor estilo, 'no meu tempo, tudo era melhor'. Então, coloca-se uma pitada de (suposta)-experiência e tem-se a impressão de que a pessoa, por ter vivido/vindo de um outro tempo, tem algum discernimento para julgar os dias de hoje, sempre com parâmetros os valores do passado.
E, desse jeito, é claro que tudo será sempre pior do que foi antes. (por coincidência ou não, assemelha-se com a linha decadente cristianista que começa no paraíso adâmico e termina no juízo final). O que me leva a crer que isso é um desejo de ser velho. Ou pelo menos de ter a clarividência deles. Evidentemente, um blefe mal-feito.
(obs.: "o meu tempo" nunca se refere aos dias de hoje. )
nº4
Todo esse papo absurdamente delirante tem uma finalidade, apesar de parecer o contrário. Explico. Existe por aí um grande sentimento de identidade com os anos 80, que faz as pessoas ressucitarem os seus símbolos e totens característicos dessa década, uma epidemia silenciosa. E, em um dia qualquer, me perguntei porque isso não acontece om os anos 90.
Às vezes parece haver um pouco de desprezo dos oitentistas. Talvez também pela proximidade cronológica, que inibe o saudosismo (afinal, só se sente saudades quando se está longe de algo). A tudo isso se soma a impressão de que a década de 90 'é mais chata porque teve mais tecnologia' (¡puro ranço retrógrado!).
Quem disse que tem que ser tosco pra ser legal? Só porque um video-game tem quadrados unicolor ao invés de desenhos inteligíveis, ele é mais legal? Foi pensando nessas babaquices que decidi começar o Arqui 90, uma tentativa de juntar/rememorar os ícones dos anos 90.
A idéia é simplesmente registrar as reminescências, sem nenhum intuito louvatório ou analítico. Aliás, esses dois são os que menos importam para mim. Recolocando os dois autores de lá de cima, pretendo que o Arqui 90 seja um olhar acurado, documentador, mas sem vícios analíticos. E é claro que a colaboração de todos é sempre bem-vinda. Afinal, uma mente lembra menos do que duas que lembra menos do que três que lembra menos do que.....
Aparecerão, periodicamente, anotações sobre as totens que ficaram dos anos 90. E rezo pela justa medida: Que não caia em uma coleção banal-infantil e nem em uma masturbação mental desorientada.
Então, está lançado o Arqui 90. Logo após os comerciais, aguardem! (para lembrar o jargão de Silvio Santos)
Sexta-feira, Maio 26
formigas não pulam
Domingo, Maio 21
Porque hoje eu sou o homem mais feliz do Mundo =)
Sexta-feira, Maio 19
O poeta é uma Penélope. Vai tecendo suas palavras de dia, mas desmancha-as de noite, para retomar no dia seguinte. Ambos adiam o término de seu ofício pois sabem que se ele terminar, então todo o prestígio que recai sobre si se esvairá. Este trabalho perpétuo de costura/descostura vêm justamente do sentimento de falta. É da ausência de Ulisses que nasce a necessidade do bordado, interminável até que o herói retorne, ocupe o vago lugar de regente (o que explica o caos vivido pela Ilha) e restitua a plenitude (¿Erfühlung?). E com o poeta se dá exatamente o mesmo. Tricota e desfia as palavras extensamente e só finaliza sua teia quando o motivo de sua aquiescência retornar para tomar o poder que lhe cabe.
Após isso consumado, não há mais necessidade do engenhoso truque. (e aqui eu devia começar a segunda parte, imprevista, da coisa toda: escritos e vida real.)
Sábado, Maio 13
Respondendo a perguntas recorrentes: na verdade, não sou eu que escrevo. São as coisas que se inscrevem em mim. Só cumpro o caminho inegável de colocar em palavras, 99,98% das vezes ruins. Grafo no papel, não porque tive uma idéia "maravilhosa"/"fascinante" e assim quis incrementar-conservar sua forma, mas sim porque esta idéia se empoçou na minha cabeça e está ocupando o espaço de outra coisa mais importante. Só escrevendo esse carrapato desgruda e libera o pensamento pra outras tarefas. Tanto é fato que às vezes delego a função de grafar a impregnante idéia para outras pessoas com mais disposição e talento verbal. Se houver alguém para tal, é claro.
Só faz rascunho quem pretende, depois, reler o texto [ =D ] e possivelmente corrigir/melhorar [ xP ]
É, não sei. No fim (¿fim?) de tudo, escrevo por acidente. Desculpe.
Domingo, Maio 7
Puzzle me
Estou farejando. Pelo meio dos juncos enevoados e anoitecidos, procuro com cuidado. Vento seco, névoa fria, me sinto só. Mas nessa situação, nenhum homem poderia se sentir de outra maneira. Dentro do seu íntimo, cada um sabe quando chega a sua hora de assumir os dedos, que tateiam em febre pela grama de penumbra. Silêncio. Aos poucos, inchados pelas picadas de formiga, pelos beijos de espinhos, os dedos recolhem as peças que estavam perdidas pelo chão. Não posso saber se consegui todas, a lualuz obstruída pelos galhos e nuvens não é suficiente para que eu posso enxergar com clareza. Mergulhado no oceano de sombras, os olhos renunciam lugar ao olhar do espírito, insensível à ofuscação ou ao obscurecimento.
Posso já começar meu quebra-cabeças. Disponho as peças sobre um pedaço de terra decapeado, semiluminado por qualquer luz anêmica. Embaralho, cato, peneiro, esmero os pedacinhos do meu labirinto pessoal que jazem no capoeirão. As peças, irmãs em tamanho, únicas em formato, amontoam-se formando um mosaico indissolúvel. Se combinam no encaixe, destoam no desenho; se parecem no desenho, destoam no formato. Força-se um encaixe, para compor uma curva agradável aos olhos, porém completamente enganosa. Acopla-se dois formatos perfeitos, mas formam uma cromocontínuo pouco surpreendente que apaga as expectativas de uma figura extraordinária. A mudança da posição altera a composição, e já não posso me orientar quanto a isso. As semelhanças se alternam, as diferenças frustram, pouco parece fazer sentido no formigueiro caótico que se oferece sem resolução. Complicante, porque sabe-se aonde quer chegar mas não como.
Então procuro as peças do canto, as que têm linhas retas. É mais fácil seguir pela reta, um meio mais regular para julgar compatibilidades verdadeiras, o que de fato se encaixa. A ordem favorece o discernimento. Perfazendo-se isso, completamos a moldura de um desenho ainda desconhecido. Ao menos sei que todas as outras peças estarão somente dentro destes limites. E para manter essa segurança, prefiro me agarrar às fronteiras para chegar ao centro. De pouco em pouco, as bordas se alargam com o adicionar de cada nova peça. Há receio em atingir o todo. Isso significa certamente que as laterais, antes tão primadistantes entre si, se encontrarão para compor a figura completa. E o que é que há depois disso? Depois da plenafigura, o que há?
Porém ainda não há tranqüilidade. A composição não me agrada, parece uma imagem hedionda que não esperava encontrar. Não era pra ser assim. Ainda que pareça ser a certa resolução, um sentimento de consternação se constrói. Deve haver peças faltando. Devo ter perdido-as em algum brejo da redondeza, ou em qualquer pé de fruta fértil. As peças me escapam, e não consigo supor onde podem estar. ninguém roubou, pois não há ninguém comigo, nem ao lado e nem contra. Onde estão? Procurem todos pelas peças do meu enigma, deformado até a última baixeza. Essas pétalas artimoldadas, unicamente para se completarem em um propósito anônimo.
Ainda que achado tenha todas, como poderei saber? É quase fim, e o maisdolorido se deita sobre mim. Caso eu tenha errado em um ponto, qualquer que seja, até aqui, terá sido tudo em vão. então será necessário desmontarse tudo e recomeçar. O lapso pode terme feito esquecer algo lá atrás, e então faltarão peças para suprir o final. Uma busca sem solução. Se sobrar, então estou preso num paradoxo. Continuo, respiro, hesito. Não preciso. Não, não quero prosseguir. Antes mesmo do término da tarefa, a imagem final horrenda já se afigura na minha mente. Em névoa, em penumbra, em sombras profundas, com silhueta difusa e rosto translúcido, não sei dizer se o vulto que se assoma no fragmentário quadro é a morte ou meu próprio rosto.
Segunda-feira, Maio 1
[épico sem título - parte III final]
Quando chegou o vento oeste
Sacudindo a bandeira rasgada
Já não restava mais nada
Que tivesse voz pra contar
Sobre o horror que sucedeu
Sobre as casas queimadas
De tochas já apagadas
Pela neve densa ressentida
As cinzas abrasadas no chão
Calam os soluços dos montes
Pelos vales e montanhas
A relva estéril ressecou
Fumaça sobre borrasca
Mancha a paisagem de cinza
Não há voz, mugido nem trinar
Somente uivo afiado do vento
Mesmo os lobos foram embora
Pois não há mais rebanho
As tábuas deitam rendidas
Os poços não refrescam mais
O que um dia foi plantado
Soluça agora mutilado
Sem redenção nem pecado
Sem arado de afagar
As nuvens de céu baço
A terra sem abraço
A grama sem carinho
Adormecem sonho esparso
Quando chegou o vento oeste
Com a luz alva do sol
O orvalho congelado
Sobre a terra lagrimou
Quando chegou o vento oeste
Reanimando os pinheirais
O todoverde renasceu
Nos fiordes abismais
Sim, obrigado Sr. Botana por me lembrar: de longe, eu persinto o cheiro da dama-da-noite e da gasolina.
Final Countdown: 14 dias
=(
Como eu odeio ser wertheriano
|