Sexta-feira, Março 24

De outra sexta-feira

O desenho metaviciado
Dos ladrilhos da calçada
Cabeça baixa, corpo mole
Toda libido abandonada
Pouco dinheiro no bolso

O bolo de forma da padaria
Indesejado e indefinido
As moscas do lado de fora
Contra a tampa plástica
Se batem teimosamente

A luz leucêmica do poste
Abençoa bêbados e putas
Baratas dançam loucas
Esperanças são poucas
Às portas dos esgotos

Ovo cozido de boteco
Faróis amarelo piscantes
Derrapadas e arrancadas
Dos becos mais escuros
Da solidão assaltada

Entre barbas mal feitas
Pernas mal depiladas
Um roçar de pêlos
Em qualquer canteiro
Por toda madrugada

Vidas e garrafas vazias
Ocas guarita e vigia
Esquina após esquina
Ônibus roncam motores
Toda libido abandonada





Quarta-feira, Março 15

A uma borboleta que coloriu o meu jardim e me desapareceu em um Sol.





Domingo, Março 12

[épico sem titulo - parte 1]

Quando chegou o vento oeste
Vindo da costa pedregosa
Todo a aldeia comemorou
A chegada do novo verão

A luz delicada do sol
Derretia com calma a neve
Luzia carinhosamente
Entre os galhos dos pinheiros

As gotas cristalizadas
Sobre as folhas ressequidas
Voltam escorrendo ao chão
Como um beijo de fertilidade

Como um sorriso de moça
Como um tesouro secreto
Como braços de abraço
As flores se abrem agora

Por todos os campos planos
Crescia um tapete verde
De esperança e de abundância
De uma nova boa colheita

Hoje à noite terá fogueira
Muita música e muito vinho
Os vestidos rodopiantes
Os homens a gargalhar

Os esquilos e os ursos
Já deixam suas tocas
Muita fruta e carne fresca
Para todos se saciarem

Os vegetais são colhidos
Pelas mãos das camponesas
Os animais são abatidos
Pelas redes dos caçadores

(a continuar)





Domingo, Março 5

A menina que adorava advérbios pediu a ele uma palavra. E ele disse:

- Sempre