Segunda-feira, Novembro 28

Não vejo nenhum motivo para que 'álcool' seja escrito com dois 'oo'.





Quinta-feira, Novembro 24

(O post de hoje foi inspirado pelos diálogos com BOTANA, D.C. Devido à magnitude e ao alto grau de originalidade, abrimos excessão e citamos a referência. Obrigado)

Os contos de fadas constituem uma parte importante da identidade cultural de um povo. Desde criança, somos criados ouvindo histórias lendárias que nos fazem viajar por um mundo de imaginação. A autenticidade do folclore local aflora nessas inesquecíveis narrativas. Pensando nisso, coletamos contos de diversas culturas pelo mundo:


Inglaterra: Um terrível dragão mantém a princesa captiva num castelo. O rei convoca o nobre príncipe encantado para salvá-la. Numa batalha honrada, o príncipe enterra sua espada justiceira no dragão, liberta a princesa, se casa com ela e são felizes para sempre.

França: Um dragón sequestra a adorável encantadora primaveril princesa. O destemido paladino em seu cavalo branco corre em socorro da princesa. Após derrotar o dragão, eles se casam no castelo com uma festa esplendorosa, com mil convidados, champagne fino e um lustre ma-ra-vi-lho-so!

Alemanha: Um dragão sequestra a princesa. O cavaleiro não aparece porque foi convocado para servir a SS. Ao invés disso, vem a Luftwaffe e bombardeia o dragão. Porém, descobrem que a princesa era judia e mandam-na direto para um campo em Ausschwitz.

Itália: Um dragão siciliano sequestra a princesa. Garibaldi, o campeão, parte em disparada para o castelo. Depois de duelar com o dragão, todos dançam uma tarantela para comemorar o casamento.

Japão: Um dragão enclausura a princesa em um castelo. Um grupo de cinco jovens colegiais é avisado pelo robozinho do perigo que assola Tokyo. Eles saem deliberadamente da aula, pegam seus uniformes coloridos e colados e vão para a luta. Encontram dezenas de recrutas patetas que são facilmente derrotados por suas pistolas laser. O dragão se enfurece e parte para a batalha. Os heróis convocam seu robô mega-ultra-hiper-gigante e socam o inimigo, que solta faíscas quando morre.

China: Um dragão sequestra a princesa e, voando, leva-a para as montanhas. Procura um calabouço para cerrá-la, mas todos os galpões estão cheios de chinesinhos ilegais em linha de produção fabricando tênis e controles-remoto. Os castelos foram demolidos e agora no lugar estão construindo usinas siderúrgicas.

Irlanda: Um dragão mantém a princesa prisioneira. Ele vigia atento pela chegada do príncipe. Nada. De repente, um som de flautas e alaúdes preenche o ar. De dentro das florestas, um bando de duendes e gnomos saem cantando alegremente. Dríades, faunos e ninfas cantam uma canção enquanto saltitam em volta do dragão. Todos dançam felizes para sempre.

Rússia: Um dragão rapta a princesa e aprisiona-a num calabouço da Sibéria. Um dia depois, o Estado desapropria o imóvel e remaneja os dois para uma moradia popular no subúrbio de Moscou. Compelidos a trabalhar na metalúrgica estatal por um salário medíocre, ambos morrem de frio após uma semana.

Finlândia: eräs lohikäärme kidnapata ruhtinatar. He pysyä pystyssä metsässa kylmetys yksin. Kuten ratsu löydos jonne Suomi paikallistaa en, kumpikin arpanoppa paukku lumi. (*a ser traduzido do finlandês)

Brasil: Um dragão faz um sequestro-relâmpago e leva a princesa para um cativeiro no morro do Alemão. Enquanto ouve Araketu, toma cerveja e joga bola com os parcero no campinho de terra. Mas de repente os rojões estouram no céu. O GATE e o DEIC estão subindo o morro para desabaratar um esquema de tráfico de drogas. Por acidente, descobrem a princesa, que, dois meses depois, sai no Faustão e na Playboy.

Paraguai: O dragão leva a princesa para o seu esconderijo. O príncipe preocupado parte em busca da amada. No caminho do castelo, dois trombadinhas roubam a carteira e a espada dele. Passa num sacoleiro da Ponte da Amizade e compra uma espada "fria", baratinha na promoção e a bainha junto grátis.

África do Sul: O Dragão, branco, rapta a princesa, negra, e a leva pra longe, para um bairro branco. O dragão, branco, que é minoria, acaba tendo de enfrentar não um, mas um exército de cavaleiros, negros, revoltados com a opressão segregacionista. A princesa é libertada do dragão e todos se libertam do regime discriminatório de herança colonial.

Escócia: O dragão voa com a princesa para um castelo nas highlands. Após encontrar o local secreto, o príncipe McGregor ressoa vibrante um hino de guerra na sua gaita de foles. Com seu kilt e sua lança ele duela com o dragão, honrando os ancestrais do seu clã. Salva a princesa, beija-a e os dois enchem a cara de whisky juntos.

Iraque: O dragão rouba a princesa e tranca-a no prédio abandonado da embaixada britânica. Os líderes fundamentalistas se revoltam e prometem retaliações ao "grande dragão do ocidente". Mandam uma fita VHS com intimidações para o dragão que a envia diretamente para o Pentágono. Dias depois, um carro-bomba explode na porta da embaixada, matando o dragão e mais sete militares da coalisão.

Madagascar: Era uma vez um dragão. Como não havia princesas nem cavaleiros na ilha (aliás não havia nenhum ser humano) ele viveu feliz para sempre.

Noruega: Um dragão de gelo rouba a princesa loira de olhos verdes. Aprisiona a moça numa caverna perdida em um fjörd congelado. A princesa chora e roga por Odin para que seja salva em breve. Em pouco tempo, vikings furiosos desembarcam de seus drakkar e, empunhando seus machados, combatem sangrentamente com o dragão. Os que morreram na batalha, voam merecidamente para a Valhalla enquanto os sobreviventes conduzem a princesa de volta para casa.

Jamaica: Um dragão rasta sequestra a princesa e leva ela pra uma cabana no meio do mato. O cavaleiro "Buffalo Soldier" fica encanadão e vai atrás dela. Pela emancipação do homem, ele combate o dragão que só quer o mal do seu coração. Então eles viajam de volta pra casa fumando uma folha de bananeira. Tomam banho de cachoeira e admirando o pôr-do-sol todo dia enquanto ouvem um reggae pra dentro da cabeça: "I wanna love you...and treat you right...I wanna love you...every day and every night...We'll be together...O Jah provide the bread..."

Congo: Um dragão do Zaire sequestra a princesa. Sem escrúpulos, o dragão decapita-a em um só golpe e pendura sua cabeça nas fronteiras para servir de exemplo. Os militantes congoleses ficam revoltados e promovem uma chacina armada, assassinando mais de 400 civis. Além das causas pontuais, a disputa também envolve expropriação de terras e disputa pelos alimentos doados pelas forças armadas norte-americanas.

Zaire: Um dragão do Congo sequestra a princesa. Sem escrúpulos, o dragão decapita-a em um só golpe e pendura sua cabeça nas fronteiras para servir de exemplo. Os militantes extremistas nacionalistas ficam revoltados e promovem uma chacina armada, assassinando mais de 400 civis. Além das causas pontuais, a disputa também envolve expropriação de terras e disputa pelos alimentos doados pelas forças armadas norte-americanas.

México: Um dragão mantém a princesa Gonzalez cativa em Acapulco. Um cavaleiro sai em resgate mas é derrotado vergonhosamente. Outro cavaleiro também tenta mas morre no combate. O escudeiro tem o mesmo destino. Na verdade, não restou nenhum homem capaz de resgatar a princesa porque todos que tinham porte físico para correr, pular ou luta conseguiram cruzar a fronteira com os EUA.

Palestina: Um dragão do Hezbollah sequestra a princesa. O grupo terrorista assume a autoria do atentado e exige a retirada das tropas israelenses pela libertação da moça. Ariel Sharon ainda não se pronunciou oficialmente sobre o assunto.





Terça-feira, Novembro 15

Watch Tower II

Garoa nas estepes frias da Polônia. Alguns pequenos flocos de neve caem do céu indeciso, encontrando uma fumaça profana. Sons de tambores retumbam pelos campos abertos. Rastros firmes riscam o caminho até a batalha. Não é das maiores tropas, e nem das mais equipadas, mas os trajes eram assustadores o bastante. Um comboio de carroças, também não tão bom assim, acompanhava o exército. Eles estavam dispostos a gastar mais de um dia na luta, mas não muito mais do que isso. Finalmente parecia ser aquele o dia improvável.

Mal-trapilhos, sujos, errantes, renegados. Os guerreiros completavam arquejados o último dia da marcha. Os olhos miram ao longe. Qualquer que seja o resultado, será a última luta, para ambos os lados. Os trigais queimados pela neve, os bichos todos já fugiram. A natureza parecia estar pronta para testemunhar aquele teatro mudo. Nem mesmo a neblina ousou obstruir as horas que seguiriam, que certamente marcariam uma nova era nos relatos de história. Não uma era de glória e nem de progresso, mas seriam novos tempos.

A Torre permanecia em seu lugar, impassível. Fleumaticamente, olhava para o horizonte, sem qualquer menção de desistir da sua função de vigiar. Teimava mesmo em resistir até o último instante. Persistir, existir, porque tanto desejo em continuar? Porque a insistência quase apática de aguardar o que está previsto? Indiferente como a grama geada a seus pés, a Torre repousa. A parede de pedra fria não demonstra fúria nem combatividade. Também não permite expor a fraqueza dos dois sentinelas que ainda sobrevivem, com honras mas sem reconhecimentos.

Pouco a pouco, os esparsos soldados começam a se movimentar. Eles preparam seus equipamentos exóticos de guerra. A Torre já havia deflagrado muitos, mas era difícil imaginar como lidar com tais artefatos tão estranhos. De um modo desorganizado e pouco urgente, as máquinas se assentavam atrás das infantarias enfileiradas. O defensor não esboçava nenhuma reação de medo nem de ofensividade. As pedras das catapultas embarcavam para seu fardo profano. Duas ou três, elas atingem vôo conciso ao seu destino. Chocam-se brutalmente contra os contrafortes teimosos. Mais um tiro, a colisão ecoa pela pradaria.

Agora, todas as pontas agudas se voltam contra a Torre. As balistas estão armadas, prontas para receber a ordem de comando de um capitão anônimo. Uma após a outra, as flechas rasgam o ar em frenesi, buscando neuroticamente o seu alvo. Um após o outro, os projéteis ferem a pele de mármore, que sangra fragmentos rochosos. O disparo continuo e desvairado fratura dispersamente o último abrigo. Os blocos aos poucos váo se esfacelando, voltando ao chão de onde nasceram.

Os tiros cessam. Paraplegicamente, a Torre tenta se firmar, decapitada de seus parapeitos. Um rascunho de apreensão preenche uma breve lacuna até a próxima manobra. Embriagados de fúria, os guerreiros descem a colina gritantes, com toda espécie de arma em mãos. Grandes troncos de madeira aceleravam por entre os corpos febris. Fogo e martelo sitiavam a base da construção enquanto um último disparo de balista amoleceu finalmente toda a estrutura.

Poeirentos, os escombros jaziam derrotados, como era impossível de imaginar há algum tempo. Não há pilhagem, pois comida não havia lá. Como bichos, os sobreviventes farejam o pedregulho em busca de algo que possa ser engolido. Agora, deitada no chão, a Torre descia a sua própria sepultura, de onde não havia de se levantar e que nenhum ser humano seria capaz de copiar. Ventava gélido nas estepes áridas. Por dentro, silêncio.





Terça-feira, Novembro 8

Semântica informal

Muitas vezes passamos por algumas coisas importantes e sequer nos damos conta disso. Menos por culpa nossa, mais pelo adestramento que recebemos, simplesmente ignoramos defeitos primários. A maioria deles, infelizmente, está na linguagem. E como sabemos, estudar a linguagem não é algo fácil. Afinal, como analisar aquilo que é a própria matéria dos pensamentos? Exatamente por conta disso que muitas coisas nos parecem ilógicas ou às vezes óbvias demais. E aí que está o problema:

* Fundamento nº1: 'homossexual' é o seu filho, o do vizinho é 'viado' mesmo.

* Quem é que disse que as princesas têm de ser bonitas? Só porque ela vai herdar um reino não significa que seja encantadora, muito menos simpática. Dercy Gonçalves ou Glória Maria poderiam muito bem ser princesas se fossem filhas de algum rei.

* Futebol no Brasil é um ritual sagrado onde a linguagem perde todo conteúdo ofensivo. Xingar o próprio parceiro de 'filho da puta' sorrindo é uma demonstração sincera de espírito de equipe. 'Enfiei no meio das pernas', 'lança por trás' e 'agarra essa bola, palhaço!' não têm absolutamente nenhuma conotação sexual.

* Corações não se apaixonam. Letras de pagode e pop/love são mestres em jogar toda a culpa no pobre orgão, ao invés de assumir os erros. Até onde se sabe, músculos não se apaixonam por aí. Sinto muito, miocárdios não se apaixonam.

* 'Jogar bola' sempre significa 'futebol'

* Mais feudalismos: essa história de o Leão ser o rei da floresta parece meio retrógrada. Ninguém precisa mais de monarquia. Soa muito conservador, teocêntrico e hereditário. O mesmo também vale para artilheiros de seleção e apresentadoras loiras infantis.

* Tempo é relativo, Einstein já dizia isso. Então quando alguém disser 'já volto', 'só um minutinho', 'não demora nada', já sabe.

* Algumas coisas se pode contar e outras não. Parece óbvio mas tem gente que se confunde cada vez mais com isso. Então, quando ela te perguntar ' O quanto você me ama?' simplesmente responda 'dois litros'.

* "Às luzes de...": sempre se cita um autor ou filósofo com essa infame pérola. A expressão sugere que a racionalidade ilumine nossas mentes, embora comprovemos o contrário na prática. Seu correspondente visual é a lampadinha, ícone da idéia súbita.







FEA: Viva o capitalismo
FFLCH: abaixo ao capitalismo
POLI: Que capitalismo?