Sábado, Agosto 27

Um shopping Classe A num país de Terceiro Mundo. Menina-palhaço, Menino-palhaço passam chocolates pela atendente.

-pode vir o próximo
- Oi! ..tudo bom?
- ((sorri))
- A gente pode recitar um poema pra vc?!?
- ((sorri contidamente))
- O que adianta a baía, a Glória .....
- ...a linha do horizonte, se o que eu vejo é o beco

Como reticências, Menina-palhaço e Menino-palhaço saem da loja de varejo.





Quarta-feira, Agosto 10

É interno
...
Mas também pode ser chamado de prisioneiro, penitente, marginal, detento, presidiário, criminoso, bandido, filho da puta. Não importa o nome que se dê, todos fogem do interno. Essa mancha maldita da sociedade que aparece todo dia na TV com as mãos para trás e o delegado ao lado insiste em existir e perturbar o que parece correto. A maldição de ser marginalizado deixa marcas inevitáveis. Se você for cristão, na alma; se for kardecista, no espírito; se for iluminista, na essência; se for sartrianista, na existência; se for absolutamente misólogo, na cara mesmo.

O governo soviético marcava com ferro em brasa quem ousasse militar contra o regime comunista. Também os judeus eram numerados e confinados nos 'centros de reabilitação' nazistas. Ladrões da Babilônia e escravos da América colonial exibiam para sempre suas amputações por causa de seus descuidos primários. O tempo passa, o crime passa, a marca permanece. O Ocidente contemporâneo não tem mais mutilações punitivas, mas a fisionomia ainda carrega os vincos do castigo, do ressentimento e da desesperança. A ficha criminal pode ser adulterada, as lembranças da humilhação jamais.

Anos de reclusão, muros e grades para isolar da normalidade, a luz do Sol só pro debaixo da porta, um ambiente perfeito para cultivar uma plantação de esquizofrenias agoniantes. Como na colônia penal austríaca, a agulha vai cavando lenta e firmemente a pele, o sangue vai escrevendo na pele o qeu não se pode esquecer. O que não era violento, agora vai ser. O que não era agressivo agora esmurra por dentro estrondosamente as paredes de aço. O eco metálico acorda os carcereiros, vêm, atiram balas de borracha e voltam a dormir. Do lado de fora, silenciosamente, as coisas dormem. Ignoram o que se passa detrás dos muros de concreto e cercas elétrificadas afinal tudo parece em paz.

Assim continua até a rebelião estourar. Um tunel que se cava, um helicóptero desce no páteo do pavilhão, um funcionário conivente e tudo o que parecia burguesamente seguro agora é transtorno. A violência domina a capital. O que antes era impensável tornou-se medida urgente. As manchetes sireneantes alertam inutilmente da necessidade de reassumir o controle. Nunca se viu nada tão intimidante, é preciso providências enérgicas. Tiro, bala, bomba de efeito moral. Estado de Sítio, os
internos estão se manifestando. Tropa de choque, Garra, Rota. Gás mostarda, cacetete, festim, porrada, chute. Qualquer coisa para reprimir a ousadia de querer ter espaço.

É o fim de outra tentativa de fuga. Evasão frustrada, estão todos nus num pátio descoberto, vigiados e açoitados. Um quase sucesso que aumenta a sensação de completo fracasso. Teria faltado eficiência, vontade ou simplesmente não poderia ter sido melhor? Os portões voltam a se trancar, as chances parecem serem
menores agora. Confinados novamente, fermentam longamente um novo motim, amargo como o limo no canto da cela. Conseguirão os sentimentos pular as muralhas da auto-censura?