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Sábado, Maio 21
Só deu pra ver depois que o trem saiu. O corpo estendido ali, no trilho do trem, esmagado do jeito que não pude olhar. As pessoas se aglomeravam para assistir o que não tiveram coragem de fazer. Da distância que podiam, contemplavam cada gota de sangue com prazer em se chocar. Havia um desejo pela perturbação íntima. Não tão rápido assim, chegou um funcionário pra colocar o cadáver de lado e cobrir com um plástico preto. Bendito daquele que inventou os plásticos pretos e sua função milagrosa de invisibilizar a essência humana.
Parecia um cacto, da estatuária de Laocoonte, uma pedra no meio do caminho, a consumação do arrependimento do Severino de Maria. Quanta esperança, quanta libido, quanto desejo de viver não havia ali! Quanta alegria, quanta satisfação, quanto prazer faltava àquele pedaço parco de vida. Quantos prazeres e quantos gostos foram insuficientes para segurar aquele corpo ao espírito deste mundo. Uma vida que poderia ter sido e agora não poderá ser mesmo. Os vagões cheios de incertezas atropelaram aquela vadia de razões, vazia de motivos.
Na sua cama de pedrinhas e bitucas, seu cobertor preto desconfortava quem ainda esperava o próximo executor passar. O mono-falante já avisara diversas vezes para não ultrapassar a faixa amarela. Se a cor da faixa não fosse aquela, seria uma rima e não uma solução. É um exemplo ilustrativo, só não sei se de virtude ou de vício.
Ali, inerte, sem vida no caminho da Luz. Ainda bem. Fosse para a Barra Funda, atrasaria meu trem.
Sábado, Maio 14
Indagações filosóficas - parte I
O que você prefere: comer um filé de frango e assassinar um pobre animal ou um congelado que não se sabe como foi feito?
Quinta-feira, Maio 5
Des Fahrers Morgenslied
Guten morgen Herr Nietzsche, wie geht's dir? [kla' kla' klap]
Guten morgen Herr Nietzsche, wie geht's dir? [kla' kla' klap]
Seit ganz früh waren wir
Um dich zu sehen wir sind hier
Guten morgen Herr Nietzsche, wie geht's dir? [kla' kla' klap]
Uma pequena homenagem ao nosso ilustre motorista.
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