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Quarta-feira, Novembro 24
Unicamp 2005
"Por trás destes óculos tem um cara legal", Herbert Vianna
Tá. Já desistir de fazer os outros pararem de me chamar (rotular) de inteligente. Eu ignoro e pronto. Finjo que ouvi uma frase em russo, ao invés. Em algumas situações, pode ser bem útil saber mexer com numerozinhos em um pedaço de papel. E é pra isso que tinha tudo aquilo de gente na porta do Pueri Domus (Vila Guiomar, só pra constar). Para participar de um concurso público (que é o que não deixa de ser) para disputar uma vaga numa faculdade federal a alguns quilômetros daqui.
E o conhecimento é para poucos mesmo. Mais de 85% dos que estão ali vão pro chuveiro mais cedo. Afinal, conhecimento é poder. E estar no maior centro tecnológico (tudo bem, vai, hipérbole de jornalzinho Agora!) do país não é pra qualquer um. Mas é exatamente por isso que estive me preparando por mais de 3 anos. Guardei armas secretas especialmente para este momento, informações e conhecimentos preciosamente úteis na ocasião.
O caderninho azul e o creme chegaram. Saber costumeiro. Perguntas ridículas. V=S/t, d²=(Y-y)² + (X-x)². Só esqueceram de avisar que não é só saber o assunto da matéria. Que só isso não basta. Esqueceram de por no edital que tem que considerar Tempo também. Mesmo que você não acredite na existência dele. Mesmo que você tenha a concepção medieval de tempo imóvel. Mesmo que você tenha a concepção Einsteiniana de tempo corruptivel. Mesmo que você nem saiba o que é tudo isso. Tem que saber em 4 horas. Silêncio com as divagações filosóficas. Relógio é relógio pra todo mundo. Pelo menos, pra COMVEST, é.
E, pra você (pra mim, na verdade), que ignora tudo isso, apenas pêsames. As instruções são claras: os rascunhos não serão considerados. Não interessa que tá tudo certo com retoques de esplendor. Não conta e pronto. Se não deu tempo de passar a limpo, dane-se, problema seu. Algumas coisas não se ensinam no cursinho. Nem passa no jornal das 8:00. Também não tem no Google, nem na Capricho nem na Interpol. Obrigado óculos, obrigado toneladas de livros, obrigado overdose de cafeína, obrigado luminária cansada. Mas nada disso foi de muita valia quando o Tempo joga junto (com carrinho e jogo de corpo). E como nós nos lembramos, não haverá segundas chances.
Game Over
Domingo, Novembro 14
Como ser um Punk
Como prometido, aqui está o texto Como ser um Punk. O grande problema é que o Punk se subdiviviu em várias espécies, como Emo, Grinder, Carniça, Black Blocks e outros. Por isso o texto pode ser generalizador demais. Mas nem por isso deixa de ser verdadeiro. Vamos lá:
* Corrente. Sempre. Não tire nem pra ir em enterro, nem em casamento, nem pra tomar banho. Talvez você use-a como chaveiro, talvez você nem saiba pra quê ela sirva. Mas ela é seu objeto mágico, seu totem sagrado. Perdê-la também é considerado uma vergonha.
* Tenha uma pilha gigante de K7, afinal você é um Punk e não tem dinheiro para comprar CD, como o metaleiro. Por isso, grava dos CD's emprestados ou então dos ensaios no Rock Dog Bar. A qualidade não é lá das melhores, mas você é Punk mesmo e não pode fazer nada bem feito. ( ver próximo tópico)
* Aliás, não faça nada bem feito. Seja necessariamente um desleixado disléxico com déficit de atenção. Você nunca gasta mais de 5 minutos em qualquer atividade que exija esforço mental. Você obrigatoriamente vai mal na escola (herança genética do "Rock'n'Roll High School"). Nem mesmo pra tirar um riffzinho só com 6 notas você tem paciência. Lembre-se: o relaxo é o mais importante dos pré-requisitos.
* Roupas rasgadas. Dependendo da sua espécie, isto pode variar. Coturnos, munhequeiras, needles&pins, jaquetas de couro e cintos rebitados são algumas alternativas. Camiseta de banda compõe 75% do seu armário. Ainda que você próprio tenha feito.
* Use mochila. Seja pra carregar o skate, pra carregar o goró, pra carregar os cd's ou pra carregar porra nenhuma, use mochila. Seria uma versão jovem e malvada das tradicionais bolsas femininas, onde se encontra de tudo. Na pior das hipóteses, a mochila tem como função amortecer o impacto dos bate-cabeças.
* Seja chato. Defenda incondicionalmente sua ideologia incomume nunca admita o status quo(seja obstinado e renitente, se for preciso). Seja a tradicional anarquia, até a subsituição da carne pela soja na alimentação, seu ideário deve ser completamente excêntrico. Pode ser tecnofobia, aversão a refrigerantes, boicote à fast-food, boicote à cultura americana (apesar do nome da sua tribo permanecer em inglês), vegetarianismo, neo-feminismo, completa alergia à técnica entre outras. Escolha a que quiser.
* Punks não jogam bola. Aliás, punks não praticam qualquer esporte.
* Bate-cabeça. Este ritual sagrado deve ser executado com energia e comunhão plena. Bracinhos cruzados e chutes alternados. É a única coisa que você consegue dançar. Provavelmente um legado cultural dos jovens que não gostavam de Fox Trot, o bate-cabeça demonstra a extrema tosquice corporal da tribo. Caso você esteja com a barrinha de energia cheia no máximo, você pode dar o 'especial', mais conhecido como Mosh. Desnecessário explicação, esta manobra é o grau máximo da 'felicidade punk'. Aproveite bem o vôo, é bem relaxante e alivia o stress, hepatite, cólica, e enxaquecas.
* 3 acordes. Só.
Bom, considerando as generalizações grosseiras, este foi o máximo que consegui fazer abrangendo todas as sub-raças. Obviamente, algumas coisas saíram bem toscas. Mas como é punk mesmo, não poderia ter saído nada muito bom. Nada de solos complicados, nada de baterias com tercinas. Quanto mais textos complexos (!escrito ainda!). É isso.
Domingo, Novembro 7
A infantaria é a parte do exército feita pra morrer. É a parte feita pra dispersar o agrupamento oponente. É aquela que não lutará uma segunda vez. A explosão estoura e o ataque começa.
É quando o soldado corre para morte certa. É quando não há mais volta e para frente é a única direção possível. É quando a comida acaba e o viajante prevê o fim de sua longa jornada. Quando o nó aperta na garganta e o fôlego acaba lentamente. Quando a noite é fria e o cobertor acabou. Quando a luz apaga e o coração também. Quando falta água por mais de duas horas. Quando a munição acaba e não tem mais reforços. Quando só há churrasco para um vegetariano. Quando a raça acaba e o time deixa a virada. Quando a pilha do relógio acaba. Quando o grito é sufocado pelo silêncio.
Quando o vigia dorme. Quando o prisioneiro foge. Quando cai de bicileta. Quando Chernobyl explode porque a União Soviética não tem recursos alocativos para sustentar a competição militar.
É quando a ressaca inunda, o Anhangabaú alaga, pessoas morrem nas enchentes na China. É quando a menina vomita, o menino se masturba, o fusível queima, a bolsa quebra e a palavra rasga o próprio punho.
Lembrem-me: não haverá segunda chance.
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