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Quinta-feira, Outubro 28
Magnetismo. Dizem que vem do francês magnetismè.
Tem sido assim desde 3 anos pra cá. Um atração latente por fatos estranhos (?). Deve ser por causa da minha cara de piedade, por causa da minha incoerência deliberada ou por simplesmente magnetismo, pedintes, bêbados esquizóides e vendedores sempre me encontram na multidão.
Sentado na barraquinha de pastel. 'Tio, compra um chiclete pra me ajudar?'. É aí que o barco fica entre Silla e Carybdis. Dar dinheiro que não se sabe pra onde vai (possivelmente pra sustentar o alcolismo do pai ou o narcotismo da mãe) ou relegar aquela existência errante ao abandono absoluto. Negar ajuda é uma grande covardia, uma mesquinhês infantil de possuir e não repartir. I, Me and Myself. Mas, dar esmolas a um mendigo só adiará sua miséria para o dia seguinte, quando terá de suportar novamente a humilhação de ter sobrevivido.
Tudo isso corre numa fração de segundo entre a pergunta e a resposta. Não sei exatamente porque, decidi comprar o chiclete. Num relâmpago de luz (seria essa a tradução de 'in the flash of light?), a fisionomia iluminou-se com uma esperança divina. Enquanto esperava eu pegar o dinheiro no bolso, a menina sussurrava um cântico evangélico. Um cântico qualquer. Falava sobre esperança, sobre exaltação ou qualquer coisa assim. Como se aquela decisão indecisa fosse um maná que não tem culpa de salvar os andarilhos.
Foi o bastante para soterrar todas as divagações filosóficas. Como se fosse o piscar de uma explosão atômica, como se o farol ficasse roxo, ao invés de vermelho ou verde. Afinal, que tipo de sonhos haveriam naquela menina?
Quarta-feira, Outubro 20
"A Federação de Consumidores em Ação (Facua) denunciou, nesta quarta-feira,
a grife Hugo Boss pela apresentação sexista das modelos que catam bolas no Master
Series de Tênis de Madri com fins propagandistas. "
Esta notícia, que li enquanto relaxava na Internet, se trata de modelos contratadas pela Hugo Boss para pegar bolinhas de tênis (o que, no Brasil, a gente chamaria de 'gandula') usando uniformes curtinhos. Apesar de não haver nada 'contra a dignidade das pessoas, especialmente da mulher e da criança' em mostrar as pernocas das modelos, a mobilização parece pressionar cada vez mais os responsáveis pela ação mercadológica (que, inclusive, teve autorização dos organizadores do evento e de facções políticas)
Não que eu seja contra proteger os direitos da mulher, mas a situação me pareceu completamente ridícula. Se é que há alguma desmoralização nisso, as principais culpadas são as próprias 'boleiras', cúmplices da própria sujeição. Mas isso é uma conclusão até que óbvia demais. A situação ridícula da qual eu falo é a intransgência da Facua em se intrometer na moral alheia, pensando ajudar com isso. Confunde-se 'pensar nos outros' com 'pensar pelos outros'.
É por causa desta preposição que vemos muitas idiotices (*aguarde , em PPZ, o texto 'O Idiota') por ai. Por causa desta confusão, vemos muitos Bushes 'salvando' iraquianos, muitos jesuítas 'salvando a alma' dos selvagens, muitos guris 'ajudando' as borboletas a sair do casulo. É como se o colonizador retirasse os anéis do pescoço da mulher zimbabuense (?existe essa palavra?) porque acha aquilo hediondo.
Portanto, modelos, façam o que bem entenderem. Continuem trabalhando e recebendo o cachê ou abandonem a Hugo Boss caso se sintam desrespeitadas. A escolha é unicamente de vocês.
Segunda-feira, Outubro 11
Como ser um Metaleiro*
Este guia já começa com uma observação. Entenda-se por metaleiro o indivíduo que ouça HeavyMetal e seus derivados e que levam isso como um estilo de vida. Convencionaremos portanto que a palavra 'metaleiro' designará o referido conceito e, definitivamente, não tem nada a ver com trabalhar na Tramontina, como diriam alguns headbangers. Ah! Só ouvir Metal também não vale. Isso deve ser um arquétipo de comportamento, deve ultrapassar as fronteiras da música. Vamos, então às dicas:
* Preto. Use preto necessariamente. Se você possui roupas de outra cor, desista, não perca seu tempo lendo o resto. Somente após cumprir este requisito essencial você poderá seguir as outras dicas.
* Tenha uma pilha gigantesca de Cd's. Afinal, você curte som pesado (literalmente) e deve ser um bom apreciador do estilo. Os títulos devem estar em fonte gótica, rasgada, enrolada ou afetadamente enfeitada. Nada de amarelo ou verde. Laranja nem pensar! Cores felizes são proibidas. Azul (escuro), vermelho e preto. Só.
* O metaleiro que se preza tem um respeitável cabelo longo, cultivado com anos de perseverança. Se você teve o azar de nascer com cabelo ruim, só tem duas alternativas. Ou deixa crescer e tampe seu rosto com ele (isso dá um ótimo efeito no headbanging) ou então raspe e coloque uma peruca. Cabelo em pé, nem pensar.
* Sempre discuta música. Refira-se sempre à impecável habilidade vocal na faixa 6 do último disco (imitar cantando, lógico). Ao citar os nomes das músicas, arranje aleatoriamente três ou quatro palavras do mal, como 'The Hell's Bloody Killer', 'Mighty Roar of the Beasts', 'Dark Ritual to Doom' ou então 'Powerful Black Armageddon'.
* Insista em tentar reproduzir vocalmente os solos de guitarra distorcidos, achando que os ouvintes associam seus guinchados à escala da música (Nota: Faça esta etapa com empolgação extrema, feche os olhos, toque a guitarra imaginária que todos nós temos, faça caretas. Não basta fingir. Encarne o próprio guitarrista.).
* Escolha uma banda preferida, tenha dezenas de camisetas dela, e refira-se à ela como 'a melhor banda de HeavyMetal do mundo', mesmo que só você a conheça. Também idolatre um de seus componentes, eleito o preferido. Basta escolher aleatoriamente dois nomes estrangeiros, como Brian McFeld, Hagen Wurzer, Dave Toppinen, Arthur Bayley, Harry Kleinstänson, Hans Siward ...
* Seja chato. Ao discutir música, defenda incondicionalmente sua banda preferida ( ver tópico acima) e não tolere nenhum outro argumento da banda rival, muito menos de outros estilos. Você jamais poderá aceitar que MPB é uma boa música. Aliás, você jamais poderá aceitar que qualquer estilo seja bom.
* Nunca aplauda no show. Quando o vocalista disser o nome da próxima música, finja conhecer (mesmo que seja a música anterior apenas bemolizada) e emita urros grotescos. Lembre-se, esta é sua maior expressão de satisfação ( ver próximo tópico.)
* Metaleiros não sorriem.
* Finja pertencer ao passado pagão da Suécia, mesmo tendo nascido na América do Sul. Adore divindades como Odin, Siegfried, Thor. Prove tudo isso com alguma relação de parentesco distante com algum tataravô viking.
* Seja magro. Não existem metaleiros gordos.
* Use calças de couro preto apertadas. Um toque de requinte seria recortá-la na bochecha da bunda. Jaquetas de couro preto também são uma boa escolha.
Esta foi uma pequena coleção de dicas para quem quer se tornar um metaleiro. Devido à infinidade de subespécies, algumas características foram generalizadas. Nada daqui é definitivo, discussões são bem-vindas.
(em breve, aguarde: Como ser um Punk)
Segunda-feira, Outubro 4
03/10. A grande piada da democracia. (Ou a grande democracia da piada?). O Brasil todo em festa para praticar a cidadania tão louvada por este nosso país que viveu por 20 anos uma ditadura militar. Afinal, vivemos no único país com urna eletrônica, onde o resultado do circo sai em menos de 24 horas. Agora finalmente nós podemos exercer nosso direito de votar escolher outro para decidir a nossa política. Direito tal que não podemos abrir mão de exercer. Nosso sistema de governo é tão igualitário e justo que até analfabetos (que não são capazes nem de escrever o próprio nome) podem escolher por quem serão explorados. O índio Tapajó também é cidadão, que vota e depois não tem direito político nenhum, não pode reivindicar com o vereador, e ainda toma tiro de garimpeiro quando quer proteger sua terra. Somos tão cidadões que não podemos vetar uma lei, mesmo que ela aumente em 45% o salário dos vereadores, que crie taxas dos caroços de azeitonas, taxas do plástico poliacetileno, taxas do uso do ar atmosférico.
Sinceramente, não achei graça nenhuma em votar pela primeira vez. Me senti mais uma bolinha de gude deste joguinho sem graça chamado Política que todos conhecem as regras, as trapaças e os vencedores, mas ninguém faz nada para vencer de verdade. Porque não quer, ou porque não pode, a gente acha mesmo que votar é um exercício da cidadania e que 'o destino da cidade está em nossas mãos'. Se alguém ainda acredita verdadeiramente que um analfabeto, um sertanejo terminal por inanição, um indígena de Rondônia, um marginal ou um mero eleitor é cidadão, devo recomendar algumas doses de 'Toctoc temalguemnestecranio' ou de 'bemvindoaomundoreal'
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