Sábado, Junho 26

-Próximo!
-Dona Moça, eu vim fazê RG
-Quem é você?
-José da Silva.

Era mais um naquela fila ensolarada do Poupa Tempo. Era mais um feijão naquela sopa escaldante dos legumes que não servem ao banquete da burguesia. Era mais um ingrediente daquela gororoba insossa e intragável que os Chefs do Mundo chamam de Miséria. Não existe pergunta mais amarga do que aquela. Principalmente quando vem assim: pragmática, escarrada, estúpida. E eles exigem uma resposta afim: mastigada, digerida, impensada. No meio de tantos Josés, era mais um da Silva. Na verdade, ¿era¿ chega a ser exagero. José não representava tanto assim, que merecesse ¿ser¿. E, exatamente por isso, José se encontrava ali. Havia perdido sua identidade.

Somos milhares de Josés que, como o da fila, perdemos nossa identidade e retardamos em obter segunda via. A fila é grande. Somos milhares de ¿da Silvas¿ esperando para conseguir uma nova identificação. (Sim. Esperando. Porque correr atrás cansa muito. E ¿Eles¿ dizem que perturba a Ordem. Até porque a fila não incomoda mesmo.)
Somos jovens doentios, ociosos, procurando algo para fazer, algo para ser. Somos adultos, esperando o fim do mês para receber. Somos velhos, reduzidos à condição decadente de velhos.Somos trabalhadores, contribuintes, consumidores, eleitores, fiéis, pedestres, cidadãos. Telespectadores do nosso próprio desfiguramento. Somos um nome, um cadastro, um número, uma desgraça que não comove, vinte e seis traço sete quatro três oito oito seis dígito nove.

Tem gente que gosta de ser Playmobil na brincadeira sem graça e impiedosa do Marketing. Gente que se compraz em ser uma bolinha de gude do jogo empresarial da gente grande. Montes de carne que trabalharam a vida inteira por um pedaço de papel e que agora não têm mais direito a nada. O Homem foi feito à imagem e semelhança da moderna criação divina que é o automóvel: tem de cores diferentes, alguns funcionam a álcool, outros precisam ser empurrados para funcionar e outros vêm até com alguns opcionais, mas na alma são todos iguais; encalhados nos espaços esperando alguém que os queira.
Da forma como o Senhor (Automóvel) ordenou, o Homem obedeceu, assim na Fábrica como no Comércio. Criou seres perfeitos: a embalagem, a bolacha água-e-sal, o cupom, a latinha de refrigerantes e mais um exército de mesmices enfastiantes..

Somos proletários mal-tratados pela seqüência incessante dos segundos, horas, dias, anos. E após dias e dias de angústia, quando finalmente chegamos àquela data querida chamada aniversário (mas que é apenas outra regra matemática), ficamos bobamente felizes como ¿nosso dia¿, mesmo que haja milhares de outros Josés que também possuam o tal dia.
Somos escravos do eterno tic-tac cotidiano, das nove às seis. Sem décimo-terceiro salário, mas tem direito a vale-transporte (são todos pedaços de papel mesmo). Somos carpinteiros deste mundo torto: olha só que bela obra fizemos juntos. Somos pedreiros deste Monumento que demitiu todo mundo sem aviso prévio. Somos trabalhadores que, ao invés darmos nome para rodovia, vamos para o olho da rua como entulho. Somos soldados, prontos para inteirar o número de derrotados na batalha da vida.
Somos operários do Grande Moedor de Vidas e o nosso salário por fazer esta Máquina-Mundo girar é apenas ser mais um. Mais um dominó na imensa fileira que povoa aquela suarenta Rangel Pestana. O dominó José da Silva se vai. Ainda está sem identidade. Voltará no mês que vêm, com a senha na mão.

-O próximo!






Sexta-feira, Junho 18

Depois de horas na frente do Premiere. Depois de dias comendo lanhce natural com todinho como janta, manejando arquivos pela rede. Depois de montar dezenas de bloquinhos e repetir Ctrl-H Ctrl-K zilhares de vezes. Depois de atender aos pedidos de 'como eu faço' dos alunos, depois de enfrentar as dezenas de chabus envolvendo nossos queridos computadores (ah! os computadores! sempre eles...), estou de volta. Cansado e feliz.

É bom, depois de tanto esforço, ver na tela o resultado do trabalho (ou não ver porque o áudio deu pau...rs). E, como em tudo que se realiza na vida, haverá aqueles que se opõem. Dirão que você gasta tempo demais trabalhando, que está perdendo tempo da sua vida e que tudo isso não levará a nada. Sempre existirá alguém pra dizer que você está errado. Tentarão te convencer do contrário, de que você se cansa à toa, de que não vale a pena e outras bobagens mais. Mamãe queria que eu fosse médico, papai queria que eu fosse engenheiro: no final, não virei nenhum dos dois. Para ser mais claro, eu ainda nem virei.

Não foi à toa que Michelangelo gritou 'Parla!' quando terminou a estátua de Davi. Não foi jogando dominó que Leonardo da Vinci terminou a Monalisa. E também não foi acordando às 11:30 que humano nenhum construiu grandes coisas. Se você quiser que algo saia bem feito, vá lá e faça. Esse negócio de ficar enrolando e sempre 'deixando' pra lá nunca dá certo. Todos nós um dia morrermos. O que permanecerá é aquilo que construímos e que será lembrado por muito tempo depois. Quanta inteligência não desperdiçamos com pequenices supérfluas enquanto há tanto para se aprender e realizar. Se, com apenas 10% da capacidade cerebral, erguemos impérios memoráveis, o que não faremos se nos dispormos a construir algo relevante?


(abandonei o formalismo redatorial. Que me desculpem os escritores, redatores, jornalistas, 'dissertadores de vestibular')





Quinta-feira, Junho 10

No começo dos tempos, quando o mundo era um lugar feliz e inocente, éramos mais livres. Não tínhamos tantos senhores nem tantos tributos. Não tínhamos tantos muros, tantas máscaras, tantas grades. Uma árvore era simplesmente uma árvore com seus frutos, não importando a quem pertencesse. A carne da caça era nossa, a fruta colhida era nossa. Sabíamos o nome das coisas e já tínhamos experimentado um pouco de cada uma delas.

Porém veio a Revolução Industrial e aprendemos a produzir em série, padronizadamente. Todos os produtos deviam ser mecanicamente idênticos. Por causa disso, a indústria teve de dominar a natureza, apelidando-a de 'recursos'. A madeira da árvore passou a ser pertencida, o couro dos animais foi demarcado e os frutos foram recolhidos. Desde então, quando o verbo 'ter' ganhou uma letra maiúscula, passamos a receber produtos elaborados, transformados pela indústria.

Enfim, chgamos à Idade Mídia. nessa era, em que somos dominados pela comunicação vertiginosa, percebemos tudo através de máscaras sensoriais. Todas as sensações que antes recebíamos cruas agora são carimbadas e vestidas pelos meios de comunicação. Conhecemos nosso mundo inteiro através da tela de vidro, pouco experimentamos de fato. Não por acaso vemos a expressão 'vida real' florescendo na linguagem moderna.

Poucas de nossas crianças já viram uma galinha de verdade.Pássaros? Só mesmo os pombos da Sé. Elas acreditam que todos os porcos são cor-de-rosa e que as maçãs têm aquele cabinho ridículo em cima. Açaí é uma fruta que dá em tigela e já vem com colherzinha.Graças à 'cultura de massa', esta infância conhece apenas uma mera representação dos sentidos e está fadada a tomar o arquétipo pelo real.

Vamos ao supermercado e procuramos a embalagem rosa, acreditando ser 'sabor morango'. O refrigerante transparente é de limão e o comercial de chocolate é marrom. Mas, sejamos sinceros, a verdade é esta: aquela bolacha não tem uma grama de morango, o refrigerante tem essência artificial de limão e o chocolate nunca é tão delicioso quanto o da televisão.


(Este texto ainda está sem conclusão. Não tive tempo de fazer outra, já que a professora da minha ex-faculdade riscou a que eu tinha feito. Se alguém tiver alguma sugestão, me escreva)





Sexta-feira, Junho 4

Ao nascer, somos catalogados, contados e rotulados. Depois, instalam-nos na frente da TV para contemplar as redundâncias cronometradas. Entopem nossas mentes com cursos estafantes de cultura comercial. Para finalizar o produto, colocam um código de barras sobre nós, o qual insiste em ser chamado de diploma.
Tem que ser forte, não importa o que sinta: tem que cumprir o dever. não importa como estás. Em movimentos automáticos, a mente executa o serviço, sem hora de almoço, das 9 às 6. Chegar na hora certa, preencher os papéis em branco, andar sob o céu e não perceber que as estrelas têm algo a mostrar...
A busca frenética pelo pedacinho de papel mecaniza as atitudes, transforma seres de carne em autômatos de aço, importado dos EUA...
E apaga o arco-íris que se apresenta todo dia em nossas vidas.
Estamos perdidos nessa cripta escura, rodeada de fumaça e asfalto. uma jaula de fios de cobre aprisiona os membros cansados. Megabytes de amor e vontade confiugram a dor humana.

Bem vindo à floresta de concreto.