Quinta-feira, Maio 27


O Menino com Bis

O menino com Bis
Olha para fora do trem
O menino com Bis
Quer aprender também

O menino com Bis
Tenta abrir a embalagem
O menino com Bis
Ainda não paga passagem

O menino com Bis
Junto com o trabalhador
O menino com Bis
Com a prostituta e o vendedor

O menino com Bis
No vagão apertado
O menino com Bis
E o operário cansado

O menino com Bis
Só quer matar a fome
O menino com Bis
Um dia vai ser homem

O menino com Bis
Olha toda a gente
O menino com Bis
Não vai ser diferente

(obs.: este meu poema foi premiado no Concurso de Contos e Poesias Nicolla Tortorelli realizado em 2003)






Quarta-feira, Maio 19

"Rua Dona Veridiana, próximo à Santa Casa e à Universidade Mackenzie"
Eu nem acordei tão cedo assim. Tomei café e já saí. Odeio sair com fome. A fome me traz um incômodo intenso, altera meu humor. Por isso sempre sigo a orientação maternal de comer antes de sair.
Já do lado de fora da Estação Santa Cecília, o frio me fazia esfregar as mãos enquanto descobria onde ficava o Mackenzie. É inevitável lembrar das piadinhas Casperianas e o mote 'Chupa Mack'. Mas sempre achei isso uma grande bobagem. É só pra animar um pouquinho o JUCA. No final, é tudo a mesma coisa.
Mas aparte de disputas universitárias, eu precisava achar o tal Hotel Ville. Principalmente, precisava achar um lugar para comer pois já estava com fome de novo. Para minha sorte, eu ainda tinha 15 minutos. Eu, a banca de jornal e uma latinha de suco. Comer é um dos poucos prazeres que ainda sinto. Enquanto todos traçam teorias, escrevem dezenas de livros sobre auto-ajuda, pregam religiões e saídas para a felicidade, eu simplesmente mordo a felicidade. Às vezes dou um gole nela também.
E é nisso que fiquei pensando enquanto olhava o farol vermelho e verde. O que acontece com um ser humano quando o simples prazer de comer lhe é negado? Qual quer que seja o motivo dessa negação, ela vai contra o sonho médio da aspiração burguesa. Casar, ter filhos, ser estável economicamente e ter sucesso profissional ignora completamente as angústias alimentares.
O aspecto social da fome é fortemente cristalizado pelos discursos neo-liberais estupidamente egoístas. Simplesmente não há recursos suficientes. Portanto, nem todas as pessoas do mundo podem comer. Pela manutenção do sistema capitalista financeiro, lucrai por nós. Ainda que estes discursos estejam corretos, isso não justifica nosso descaso com o aspecto psicológico da fome.
Enquanto nos preocupamos com nossas prioridades mesquinhas, muitas meninas são torturadas pelo terror de se defrontar com um prato de comida. Mais do que isso, defrontar-se com a ignorância de seus familiares. Quantas meninas não sofrem infinitamente por ter ganho 200g ao comer um pacote de bolachas. Quantos banheiros não fazem companhia às várias crises de vômito.
E como todo arroz possui seu feijão, nossa ignorância completa a angústia de um transtorno alimentar. 'Aquela menina é estranha mesmo'. 'Não sei porque ela não fala com ninguém'. 'Ela nunca sai da classe na hora do lanche', 'Porque ela nunca vem nos almoços de família?'. Somos cegos ao sofrimento de quem sequer tem prazer em comer. É tão desconhecido como o décimo planeta do Sistema Solar, ou como a origem do Universo.
Há mais coisas entre o prato e a boca do que sonha nossa vã filosofia. Há o endocrino (que insiste em passar a mesma dieta ridícula), o psicólogo (que, infelizmente, 'não está preparado pra lidar com o seu caso'), o psiquiatra, a nutricionista. Os pais, que assistem perplexos suas filhas emagrecerem desenfreadamente.
E não basta dizer que não há recursos suficientes. Nossa profunda incompreensão quanto aos Transtornos Alimentares não é um problema econômico ou político. Sinto Muito profetas do capitalismo, mas vocês perderam a razão novamente. O significado de 'Fome Zero' depende de que lado da mesa você está.





Terça-feira, Maio 11

Vamos começar de um consenso geral: Não existem duas coisas iguais no universo. Simplesmente pelo fato de ser criadas em tempos e espaço diferente já implica nesta afirmativa. Isso sem contar que a natureza está em constante transformação. Aprendi isso estudando física. Mas o que eu quero dizer está longe do alcance da física (pelo menos daquela que ensinam estupidamente nas escolas), da matemática ou da mente pequena de muitas pessoas que encontramos no meio da rua.


Entre duas coisas sempre existe uma fina linha

Uma fina linha entre a Lucidez e a Loucura

Uma fina linha entre a Humildade e a Humilhação

Uma fina linha entre a Paixão e o Ódio

Desde pequenos somos ensinados a pensar que a Alegria é o contrário da Tristeza, que o Branco é o contrário do Preto e que Razão é Fé não se misturam.
O que posso concluir disso é que os adultos descontam suas frustrações enganando a gente pequena.

Risada e Desespero são companheiras íntimas

Euforia e Angústia são dois lados do mesmo espelho

Entre o Abismo e o Céu, apenas o Horizonte

O Caracol traz a Concha como a Piedade traz o Menosprezo.

O que separa Luz e Sombra é apenas uma fina folha de papel

Somos naturalmente induzidos a seguir linhas. Aprendemos a escrever com elas, regrando nosso caderno de caligrafia. E crescemos dessa forma, obedecendo sempre as linhas. Ultrapassá-las é condenável, é passível de um castigo tão cruel como refazer novamente todo o caderninho. Escrevemos nossas vidas sempre do mesmo lado da linha (geralmente o de cima) e ignoramos o espetácular poder de um único elemento dividir o espaço em dois. Nunca ousamos cruzar esta fronteira pode ser perigoso. É a única coisa que separa o fluxo da contra-mão, e não queremos ser atropelados. Aliás, é também a única coisa que separa a Vida da Morte. Talvez por isso tenhamos tanto medo de ultrapassar os limites. Talvez por isso escrevemos acima da linha e não em cima dela. Ainda não estamos preparados para nos equilibrar sobre esta ponte de cordas que separa Xerifes de Índios. Por via das dúvidas, escolhemos o lado dos mocinhos, mas sempre esquecemos que uma Lança tem duas pontas.





Segunda-feira, Maio 3

amizade [Do lat. vulgar amicitate] S.f. 1. Sentimento fiel de afeição, simpatia, estima ou ternura entre pessoas que geralmente não são ligadas por atração sexual 2. Estima, simpatia ou camaradagem 3. Entendimento, concordância, fraternidade 4. Benevolência, bondade, dedicação.